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  • 06 JUNHO 2020
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'Andrà Tutto Bene', o hino do tempo em que "a distância é prova de amor"

O Notícias ao Minuto esteve à conversa com Cristóvam e Pedro Varela, os portugueses criadores do filme de sucesso (e esperança) ‘Andrà Tutto Bene’, que é um retrato do mundo em tempos de Covid-19.

O grito de esperança veio de Cristóvam e de Pedro Varela, mas rapidamente se transformou num hino de fé, não só de Portugal como de muitos outros países, numa altura em que todo o mundo luta contra o ‘inimigo invisível’ que é o novo coronavírus.

Hoje, a maioria das pessoas já ouviu ou passou por ‘Andrà Tutto Bene’. Só no YouTube, no canal de Cristóvam, o videoclipe tem meio milhão de visualizações. Mas a partilha orgânica (e viral) do mesmo fez-se via WhatsApp, Instagram, Facebook, Twitter e através de muitas outras plataformas.

Quando pegou na sua guitarra para lidar com a ansiedade que a pandemia da Covid-19 lhe trouxe, o músico açoriano Cristóvam não fazia ideia que estava a dar voz ao que todos nós sentimos e a criar uma música com a qual todos nos identificamos. Porque seja em Portugal, no Reino Unido, em Itália, Espanha, França, China ou EUA, “as cidades estão desertas como nunca estiveram”, “todos receiam o que está no ar”, “as nossas vidas estão adiadas”, mas é necessário manter a esperança de que “vamos todos ficar bem”, seja em que língua for.

Depois das sessões solitárias de composição de Cristóvam na ilha Terceira, foi a vez de o realizador Pedro Varela fazer a sua magia, a partir de Lisboa, com imagens a chegar de todo o planeta. Houve até filmagens remotas com Paris e ‘footage’ por medida a chegar de todo o mundo.

E foi assim que a dupla portuguesa conseguiu criar um filme, com palavras de esperança em italiano, inglês, espanhol e português, que abraçam todos os países que estão a enfrentar a pandemia e que retrata estes tempos “em que a distância é a maior prova de amor”.

Numa entrevista ao Notícias ao Minuto, os artistas portugueses contaram tudo.

Quem teve a ideia da música e videoclipe 'Andrà Tutto Bene'?

Cristóvam - A ideia começou pela canção. Regra geral, a minha forma de lidar com as coisas é agarrar a guitarra e escrever qualquer coisa... Desta vez não foi exceção. Sendo este sentimento de ansiedade transversal a quase toda a gente neste momento, acho que todos nós estamos a lidar com isto de maneiras diferentes e a minha forma de libertar alguma dessa ansiedade foi esta, escrever uma canção. Lembro-me de ter escrito a frase “Tempos em que a distância era a maior prova de amor” e de pensar que mais tarde, iríamos referir-nos a esta altura desta forma. Achei que era um pensamento interessante porque no fundo, é como se neste momento tudo estivesse ao contrário. Foi a partir desse conceito que comecei a escrever. Na altura, ainda num primeiro ‘sketch’ da canção, mostrei o que tinha ao Pedro Varela e ele gostou muito desse primeiro esboço e teve logo um conceito visual muito forte na sua mente. Começou a partilhar comigo as suas ideias e a partir daí, esta passou então a ser uma aventura a dois.  

É sobretudo um tributo a todos os que estão a lutar neste momento. A todos os que estão na linha da frente, mas não só, também a quem luta com a pequena (grande) contribuição que é o sacrifício de estar isolado em casa longe de quem se ama

E quando é que essa ideia começou a formar-se nas vossas cabeças?

Cristóvam - Foi tudo muito rápido. Penso que o primeiro esboço da canção foi criado cerca de uma semana antes de termos lançado tudo e durante esse tempo trabalhámos com muito entusiasmo pelas noites dentro, enquanto pensávamos na melhor forma de passar esta mensagem.

Pedro Varela - Eu embarquei nesta música que já estava a nascer e coube-me em equipa com o Cristóvam transformá-la numa peça conjunta e ajudá-la a chegar ao público da melhor, mais rápida e eficiente forma.

E é dedicada a alguém em especial? A algum setor?

Cristóvam - Acho que é sobretudo um tributo a todos os que estão a lutar neste momento. A todos os que estão na linha da frente, mas não só, também a quem luta com a pequena (grande) contribuição que é o sacrifício de estar isolado em casa longe de quem se ama. Diria que o objetivo é fazer as pessoas perceberem que estamos todos no mesmo barco e que juntos vamos ultrapassar este momento.

Que mensagem quiseram deixar?

Cristóvam - Quisemos deixar uma mensagem de fé e esperança. Deixar a mensagem de que, embora estejamos longe uns dos outros e separados fisicamente pelos nossos isolamentos sociais, a verdade também é que nunca estivemos tão unidos enquanto humanidade. Este é um momento transversal a todos e acredito que quando tudo isto acabar, todos nós seremos um pouco mais e saberemos melhor aquilo que verdadeiramente importa.

Pedro Varela -  A mensagem que me agarrou no projeto é na minha opinião aquela que prevalece no final, vamos manter-nos afastados por agora para nos abraçarmos mais tarde. Hoje em dia, distância significa Amor. E mantém-nos vivos a todos.

Apanhou-me totalmente de surpresa e foi muito inesperado porque o alcance foi totalmente orgânico. As pessoas começaram a passar o vídeo de umas para as outras através do Whatsapp e no dia seguinte já́ existiam milhões de plays disseminados por toda a internet

Como é que conseguiram as imagens?

Pedro Varela - Existem imagens que eu tinha em arquivo próprio e outras que recolhemos durante longos dias e longas noites de canais de televisão de todo o mundo, noticias da pandemia desde o seu inicio em Wuhan, na China. A estrutura principal é inspirada num filme do Bob Dylan de 1965, e apresenta a Cloe a rapariga dos cartazes, que é incrível e com quem filmei remotamente, ela em Paris, eu em Lisboa.

E como é que foram construindo o filme?

Pedro Varela - À medida que se ajustavam versos ajustavam-se imagens. Senti que a letra já nos estava a dar todas as indicações, depois foi só preciso convencer o Cristóvam a seguir esse caminho. Em paralelo editando e ajustando com a música que também ia recebendo os últimos toques. Depois todos os processos de acabamento se desenrolaram da mesma forma, por vários locais e estúdios de Lisboa, todos separados fisicamente, mas todos juntos nesta maratona que é fazer um filme, seja ele curto ou longo. E o fator pouco tempo nem foi relevante ou extraordinariamente desafiante, até porque isso é na verdade a história da nossa vida, nunca se tem muito, nem tempo nem dinheiro.

Estavam à espera que se tornasse viral e um fenómeno global em tão pouco tempo?

Cristóvam -  Nunca pensei. Apanhou-me totalmente de surpresa e foi muito inesperado porque o alcance foi totalmente orgânico. As pessoas começaram a passar o vídeo de umas para as outras através do WhatsApp e no dia seguinte já́ existiam milhões de plays disseminados por toda a internet. Foi e está a ser uma absolutamente surreal.

Pedro Varela -  Não, mas sabia que ia bater forte. Já criei e estive envolvido em outros projetos que bateram recordes assim de visualizações e impacto social, e é sempre uma enorme surpresa, se alguém diz que prevê números assim está a mentir.

Sinto que eu e o Varela já demos meia volta ao mundo juntos e, na verdade, nunca saímos de casa e nem sequer estivemos um com o outroEstão a pensar lançar mais algum projeto durante este período de pandemia?

Cristóvam -  Não está nos nossos planos de momento, mas acho que depende da duração de tudo isto. A minha vida é compor, lançar e tocar música e tenho estado a compor e gravar bastante cá em casa. O que posso dizer é que se lançarmos mais alguma coisa em conjunto, será certamente sobre outro assunto.

Pedro Varela- Vou continuar a escrever e a planear como voltar às produções que ficaram por acabar. Tem sido um período muito produtivo nesse sentido esta quarentena, no sentido de projetar o futuro, que para já é, eu diria, totalmente incerto.  Logo, quem sabe!

Como se conheceram?

Pedro Varela -  Em 2013. Eu estava a filmar os ‘Filhos da Rock’ e numa noite que filmávamos nos estúdios Namouche ao passar por uma das salas escuto uma voz, uma coisa meio Bon Iver, Patrick Watson meets Bob Dylan... e lá estava o Cristóvam do alto dos seus 25 anos na altura, prometi-lhe que um dia trabalharíamos juntos se ele quisesse, e assim foi. Ao longo dos últimos anos temos feito algumas coisas juntos e agora parece que acertámos em cheio, deve-se a ele que teve o rasgo e quis fazer esta canção genial. Fico muito feliz que ele faça agora o seu caminho, “the sky is the limit”.

Quando tudo isto acabar (...) imagino uma coisa meia 'loucos anos 20' onde até poderão existir alguns excessos nos primeiros temposE vocês como estão a viver este isolamento social e que preocupações têm?

Cristóvam - Tem sido difícil estar longe da família. Comecei por aproveitar para compor e trabalhar no meu novo disco e depois gravei este tema. Com a questão de se ter tornado viral mundialmente, começámos a receber telefonemas do mundo todo. Desde então, tenho passado os meus dias a responder a entrevistas e às centenas de mensagens que nos chegam de todo o lado. Sinto que eu e o Varela já demos meia volta ao mundo juntos e, na verdade, nunca saímos de casa e nem sequer estivemos um com o outro [risos]. As minhas preocupações, às semelhanças da maioria das pessoas, prendem-se com os que me são próximos e fazem parte dos chamados grupos de risco.

Pedro Varela -  Em casa com a família, a tentar aproveitar o tempo entre organizar e projetar trabalho. Mas no meu caso sobra muito pouco tempo, não só pelo que este projeto esta a exigir de nós, como pelos filhos que agora sentem que finalmente estamos mais tempo em casa. Mas preocupa-me os que estão realmente sozinhos, os que não têm ninguém, os sem abrigo... Este alerta que estamos a receber tem que ser levado a sério e temos que mudar muita coisa no futuro.

Estão preocupados com as consequências que esta pandemia pode trazer para a Cultura?

Cristóvam - Sim, muito. Mas acredito que quando tudo isto acabar, irá haver um saudosismo extremo pela música ao vivo e pelo contacto pessoal em geral. Imagino uma coisa meia 'loucos anos 20' onde até poderão existir alguns excessos nos primeiros tempos. Acredito que os maiores serão os mais lesados e que os pequeninos que já não faturavam muito e agora não faturam nada, provavelmente, conseguirão reerguer-se mais depressa. Mas isto são só ideias e suposições e eu estou preocupado como toda a gente.

Pedro Varela - Sim, sem dúvida. Os artistas, músicos, atores, cineastas, etc, todos os criadores e produtores perderam os seus canais de criação e de produção e não são os lives nas redes sociais que lhes vão dar de comer, a não ser talvez algumas figuras públicas que continuam a faturar nessas suas redes sociais. É irrecuperável o que se vai perder nestes meses e muitos vão ter mesmo muitas dificuldades em se reerguerem. E se ao mesmo tempo há aqui um momento único na história de repensar tudo o que se tem feito artisticamente, e que na minha opinião nunca mais será igual no bom sentido, depois há esse lado mais negativo de desligar com os públicos no sentido físico, sobretudo, para os teatros, galerias, cinemas, etc... Essas estruturas, as de distribuição estão a ser também muito prejudicadas e vamos ver se todos sobrevivem.

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