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"Quem ama realmente o Alentejo encontrará no livro vivências reais"

Já chegou às livrarias o primeiro livro de Mafalda Damas Revés. 'O Que Rasga o Céu' traz-nos "a história dos membros de uma família alentejana através dos quais vivemos sonhos e frustrações". E pelo meio há ainda "vidas passadas na clandestinidade, dilemas e uma história de busca pessoal".

"Quem ama realmente o Alentejo encontrará no livro vivências reais"

'O Que Rasga o Céu' é o romance de estreia de Mafalda Damas Revés. Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, com especialização em Estudos Políticos de Área, encontrou na escrita a forma de "tentar conservar um mundo que está a desvanecer". 

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, a autora, que nos últimos anos se tem dedicado à ação humanitária no sudeste da Turquia, explica que este é um "livro que conta a história dos membros de uma família alentejana através dos quais vivemos sonhos e frustrações". 

Este é, também, "um livro para todos os que amam o Alentejo porque mostra em detalhe um Alentejo visto de dentro". E foi na história da família que Mafalda encontrou a inspiração necessária para esta "imersão no Alentejo". 

Ao Notícias ao Minuto, a autora confessa ainda que "em Portugal é difícil para os escritores viverem exclusivamente com as receitas das vendas dos seus livros", porém reconhece que "é um privilégio escrever e publicar num país em que há liberdade para falar sobre os temas sem constrangimentos". 

Como surgiu a ideia de escrever 'O que rasga o céu'?

A ideia que esteve na origem do livro foi a de tentar conservar um mundo que está a desvanecer, uma vez que aqueles que o viveram estão a desaparecer. Queria tentar cristalizar com a ajuda de uma história, um tempo, costumes, práticas e modos de estar. Por outro lado, penso que consciente ou inconscientemente comecei a escrever esta história para me ajudar a justificar porque é que eu me sentia alentejana e sobretudo porque é que a minha terra, Vendas Novas, era Alentejo, mesmo não fazendo parte do Alentejo apelidado de profundo.

Em que é que se inspirou?

Inspirei-me sobretudo na história de vida da minha família, dos meus bisavós, avós e tios. Criei as minhas próprias memórias através das memórias que eles têm da sua vida e foi a partir daí que a história começou a surgir. Acho que o modo de estar dos alentejanos em geral, o seu estoicismo, a forma de esquecer as agruras cantando, também me ajudou a definir o tom da história.

Como descreveria o livro aos leitores?

O livro conta a história dos membros de uma família alentejana através dos quais vivemos sonhos e frustrações. Pelo meio há vidas passadas na clandestinidade, dilemas e uma história de busca pessoal. A riqueza do livro está nos detalhes com que a vida quotidiana das personagens é apresentada e que fazem com que a história seja uma imersão no Alentejo.

Por que razão este é um livro "para todos os que amam o Alentejo"?

É um livro para todos os que amam o Alentejo porque mostra em detalhe um Alentejo visto de dentro. São usados regionalismos e não procurei fazer uma higienização da língua, antes, quis que as personagens a usassem o mais perto do que a usariam na vida real. Ao escrever o livro quis rejeitar os míticos Alentejos, descritos por aqueles que o veem de fora, o Alentejo das coutadas, dos hotéis de charme, da gastronomia genuína, das pessoas vagarosas, entre outros. Quem ama realmente o Alentejo encontrará no livro vivências reais do Alentejo, da casa à feira, da vila ao campo.

Quem ama realmente o Alentejo, encontrará no livro vivências reais do Alentejo, da casa à feira, da vila ao campoA narrativa desenrola-se na época do Estado Novo, correto? O que justifica esta escolha temporal?

Sim, a narrativa passa-se na época do Estado Novo, no início da década de sessenta. O Alentejo era uma das zonas mais podres do país e uma das que mais sofreu com as políticas do Estado Novo, por outro lado a região desenvolveu uma cultura de resistência importantíssima na luta anti fascista e pela liberdade. Quis que a história sobre o Alentejo que eu contasse integrasse alguns elementos dessa luta e lhe prestasse de algum modo homenagem, quanto mais não fosse pelo facto de impedir que caísse em total esquecimento. O livro é muito mais do que as agruras dos alentejanos e do que a luta política, mas era uma parte importante do que eu queria contar.

Este Alentejo é também um Alentejo em vias de extinção em alguns aspetos, uma vez que as pessoas que o viveram estão a desaparecer, e com elas desaparecem também práticas, costumes e falares.

'O que rasga o céu' é a sua obra de estreia. Quais as suas expectativas?

A minha expectativa é que o livro seja bem recebido pelos leitores e que possa dar a conhecer a história de um Alentejo tantas vezes esquecido. Embora não tenha escrito a história com esse objetivo, gostava que os alentejanos se revissem em algumas passagens do livro.

Notícias ao MinutoLivro de Mafalda Damas Revés, com chancela da Guerra e Paz© Guerra e Paz

Como é ser-se escritor em Portugal?

Penso que não deve ser muito diferente do que é ser-se escritor em qualquer outro país europeu. É um privilégio escrever e publicar num país em que há liberdade para falar sobre os temas que entendemos sem constrangimentos. No entanto, em Portugal é difícil para os escritores viverem exclusivamente com as receitas das vendas dos seus livros, sendo isto ainda mais verdade quando falamos de escritores que publicam há pouco tempo e que estão a começar. Hoje em dia, o valor de mercado de um autor está também muito ligado ao nível de notoriedade que tem na comunicação social e talvez menos ao que de facto importa, que é qualidade da sua escrita e a relevância das suas histórias.

Em Portugal é difícil para os escritores viverem exclusivamente com as receitas das vendas dos seus livros

O facto de trabalhar em ação humanitária no Sudeste da Turquia faculta-lhe vivências que se refletem na sua escrita?

As experiências que tive nos últimos anos moldaram sem dúvida a minha forma de ver a vida e as pessoas e, por conseguinte, isso influenciou a maneira como penso e escrevo. As vivências que tive fizeram-me despertar para histórias a que anteriormente não teria dado tanta atenção. Neste momento encontro-me a escrever um livro de não-ficção sobre mulheres sírias em exílio. As histórias pretendem apresentar as mulheres não apenas como vítimas de uma guerra, mas antes como agentes de transformação das suas próprias vidas e membros ativos da sociedade.

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