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Sam The Kid há 20 anos o mesmo miúdo de Chelas

Aos 40 anos, a celebrar 20 de carreira, Sam The Kid continua a sentir-se o mesmo miúdo de Chelas, bairro de Lisboa de onde nunca saiu, que começou a rimar por vocação e a fazer batidas por necessidade.

Sam The Kid há 20 anos o mesmo miúdo de Chelas
Notícias ao Minuto

06:32 - 13/10/19 por Lusa

Cultura Sam The Kid

Solitário na parte criativa, mas cada vez mais dado a colaborações, Samuel Mira (Sam The Kid) lembra-se de sempre ter gostado de música, "como qualquer criança".

Em entrevista à Lusa, que decorreu na praceta em frente à casa onde cresceu, recordou a altura em que levava para ali o rádio cinzento com as cassetes que gravava em programas de rádio. "E ficávamos aqui a dançar na rua", contou.

Nessa altura, ouvia-se muito "música de dança que envolvia 'rappers', mas foi um pouco mais tarde, na adolescência, "aí em 1993", que começou a descobrir "o verdadeiro hip-hop" e decidiu "ser parte ativa, contribuir para a Cultura em Portugal".

Na escola sempre teve "aptidão para escrever rimas e versos", e foi isso que fez dele, antes de tudo, um 'rapper'. A criação de batidas veio "por necessidade", porque precisava de instrumentais.

Perto da praceta onde dançava com os amigos, no então liceu D. Dinis, foi onde acabou por formar o primeiro grupo, os Official Nasty, com quem deu, também naquela escola, o primeiro concerto.

"É só memórias que estão ao meu redor, boas memórias, desde o início até hoje", disse.

Os anos de carreira começam a ser contados em 1999, ano em que editou 'Entre(tanto)', o álbum de estreia. Seguiram-se 'Sobre(tudo)', 'Beats Vol.1 - Amor' (instrumental), em 2002, e 'Pratica(mente)', em 2006.

Depois disso, para muitos, foi como se tivesse desaparecido do mundo da música.

Sam The Kid é o primeiro a dizer que "gostaria imenso de já ter dois álbuns desde 2006". "Enquanto 'rapper', eu próprio devo-me isso a mim, mas estou sempre a ser criativo e a contribuir à mesma, mas de outra forma. Não precisamos de estar sempre a fazer o mesmo, outros projetos vão aparecendo e é isso que me deixa feliz. Eu só preciso de criar algo diariamente e que no futuro venha ser uma contribuição, isso é que me faz dormir descansado", afirmou.

Desde a edição de 'Sobre(tudo)', o rapper e produtor tem trabalhado com os Orelha Negra, Mundo Segundo dos Dealema, estreou o projeto Classe Crua (com Beware Jack) e participou em temas de, entre outros, Bispo, Regula, Mind Da Gap e Bob Da Rage Sense.

Sempre "muito solitário" na parte criativa, acabou por descobrir na parceria "aquilo que faz sentido, no aspeto mesmo de colaboração e de cada um fazer aquilo que sabe fazer melhor".

"Eu adoro colaborar e também estou nessa missão, da colaboração. Quero que no fim das contas digam que dentro do meu género musical fui das pessoas que colaboraram mais com todos. Quero que digas os nomes todos e eu diga 'tenho uma música com essa pessoa'", partilhou.

Essa "missão" acaba por deixar "um bocado para segundo plano" um, tão aguardado, novo álbum.

"Estou sempre a escrever, a apontar 'beats', mas depois há outras pessoas a pedirem colaborações e eu vou dar prioridade a essas pessoas. Se eu recusar e disser 'não, porque estou a gravar o meu álbum que quero que saia em maio' estou a por 'deadlines' em mim e sei que isso não resulta", confidenciou.

Além disso, e como questiona em "Sendo Assim" (tema que divulgou este ano e o primeiro que gravou a solo em mais de dez anos): "pra quê fazer um álbum se ele dura meses?".

"As coisas são mais efémeras, falo disso também enquanto consumidor que quer consumir tudo o que sai dentro do meu meio", disse.

Sam The Kid faz o paralelo entre 'Mechelas', compilação que editou este ano, e a experiência com os álbuns dos Orelha Negra.

"Em 'Mechelas' fui dando as músicas de forma individual desde 2016, fiz com que esse trabalho durasse mais tempo, passados esses dois anos estive a promovê-lo e em 2019 a dar concerto a apresentar o álbum. Com Orelha Negra são dois ou três anos a fazer uma coisa, o álbum sai e uma semana depois já não é nada, já estás a pensar no próximo", explicou.

Mas há outras diferenças que Sam The Kid destaca entre a altura em que começou e os dias de hoje, em que até já há um festival de verão dedicado exclusivamente ao rap nacional.

"Obviamente que há uma coisa muito boa, que é a mais importante, que é a parte de ser uma profissão bastante acessível, uma profissão que é uma realidade, e é fácil até chegares a essa profissão", referiu o rapper que vê nisto uma "vitória de uma linguagem direta, que ainda continua a ser uma música bastante jovem, embora haja intervenientes que não sejam assim tão jovens".

Foram esses intervenientes, que fazem rap "que não precisa de ser jovial ou infantil" para um público que também cresceu e não deixou de gostar de hip-hop, que introduziram uma "diferença nas temáticas".

"É importante haver esse tipo de hip-hop. Quando comecei era super-jovem, nos anos 1990 ainda não havia temas de uma pessoa mais madura, falar de divórcios ou situações assim", disse.

Sam The Kid acredita que hoje poderia ter sido mais fácil dar os primeiros passos, por haver acesso facilitado "à forma de criar e de ser autossuficiente, de fazer um instrumental, de gravar".

"Mas como é fácil para ti, é fácil para todos e há uma maior afluência de pessoas que se interessam bastante pelo rap, não tanto pela cultura hip-hop [composta por quatro vertentes: rap, graffiti, breakdance, DJing].

Na década de 1990, quando a internet surgiu, "se calhar numa semana aparecia um gajo novo e era muito mais fácil sobressair".

Sam The Kid acabou por sobressair e é hoje considerado um dos melhores 'rappers' e produtores nacionais, mas se tiver de escolher entre ir a um programa de televisão ou ao primeiro episódio do 'podcast' de um miúdo de 15 anos, prefere a segunda hipótese.

"Sinto-me assim e gosto de estar assim no meu 'underground', no meu mundo. Até posso ter estatuto para ir a um certo programa televisivo - se calhar até não, porque não estou muito nesses radares - mas não tenho nenhum interesse em ir a uma coisa que até pode ser mais popular, eu prefiro ir ao primeiro episódio do 'podcast' de um miúdo de 15 anos que está a fazer uma coisa que ele me diz que é interessante e sinto-me mais em casa, identifico-me com esse miúdo. Enquanto se for a um programa televisivo 'mainstream' sinto mesmo que não sou daquele mundo", explicou.

Ele próprio acabou por criar um 'podcast', 'Três Pancadas', que é parte integrante da plataforma TV Chelas, conceito que existia há "mesmo mesmo mesmo muito tempo", mas só lançou em 2016.

Em '+-', tema do álbum 'Sobre(Tudo)', já dizia que "TV Chelas representa o melhor dos canais". É através da plataforma que partilha as horas infindáveis de imagens de arquivo que foi captando ao longo dos anos, e que ponderou compilar num DVD, "mas ficaram mais 140 horas por ver".

É também para a TV Chelas que entrevista 'rappers' com tantos ou mais anos de carreira do que ele e foi através da plataforma que foi partilhando, um a um, os 18 temas de 'Mechelas', acompanhados com vídeos onde explica como estes foram criados.

"É uma coisa que me dá bastante prazer e quero que as pessoas sintam isso, que vem de mim", disse.

TV Chelas também é "um voltar ao início", quando fazia tudo sozinho. Hoje, contou, é ele que vai aos correios enviar as encomendas, de álbuns e 'merchandising'.

"É um voltar a como eu fazia as coisas no início, mas com um estatuto diferente, então a procura é maior. O que faz com que as coisas sejam mais justas e espetaculares no aspeto do 'feedback' a todos os níveis", referiu.

Desse inicio até hoje, Sam The Kid olha "com muito orgulho" para o seu percurso, o de alguém que se mantém igual e tem "cadastro limpo", já que nunca fez nada que comprometesse a sua arte.

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