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Agustina deixa uma obra que "é mais do que literatura"

O editor da Guerra e Paz lamentou hoje a morte de Agustina Bessa-Luís, "a maior escritora portuguesa do século XX", e considerou que a sua obra "é mais do que literatura, é milagre infantil e criação do mundo".

Agustina deixa uma obra que "é mais do que literatura"
Notícias ao Minuto

17:21 - 03/06/19 por Lusa

Cultura Guerra e Paz

Recordando a menina e a mulher que sempre coexistiram em Agustina, que morreu hoje, no Porto, aos 96 anos, Manuel S. Fonseca afirma orgulhar-se de ter sido desta escritora o primeiro livro editado pela Guerra e Paz, aquele que marcou o arranque da editora.

"Neste momento de profundo pesar, a Guerra e Paz recorda a tarde do dia 10 de Abril de 2006, data de lançamento da editora, de que a escritora foi a primeira autora", afirma em comunicado o editor, recordando que Agustina não pôde comparecer à sessão de lançamento do livro "Fama e Segredo na História de Portugal", devido a um problema de saúde, de que não voltou a recuperar.

A Guerra e Paz conta ainda no seu catálogo com a única autobiografia existente, "O Livro de Agustina", e com a obra "As Meninas", um livro em que a escrita de Agustina Bessa-Luís encontra a pintura de Paula Rego.

Das lembranças que tem daquela que considera ser uma "incontornável figura da cultura nacional", Manuel S. Fonseca recorda os esforços insistentes que fez para a conhecer.

"Conheci Agustina quando, com aquele descaramento tintado pela confiança que perpassa por certos heróis masculinos dos romances dela, arranjei maneira, primeiro de lhe telefonar, depois de a visitar na casa da [rua de] Buenos Aires, em Lisboa, e por fim de lhe invadir a casa do Gólgota, no Porto", conta, afirmando nunca ter feito isso com mais ninguém, à exceção de Mécia de Sena (viúva do escritor Jorge de Sena).

Manuel S. Fonseca confessa que, apesar de muito ter gostado de conhecer Agustina, se sente roído pelo "desmedido e irrealizado desejo de não a ter conhecido menina".

"Vejam bem, a Agustina que eu conheci sempre teve o riso de menina, o gesto inocente de menina, como se a menina usurpasse nela a plenitude da mulher", diz, acrescentando que "muito mais" gostaria de a ter conhecido "menina e na praia", aludindo a um retrato que dela existe num dos livros publicados pela Guerra e Paz, em que Agustina "está de vestidinho de étamine cor de morango às pintinhas, as mãos postas no regaço".

Manuel S. Fonseca arrisca até dizer que nos esparsos encontros que teve com a escritora - nas apresentações de livros e numa festa com o cineasta Manoel de Oliveira -- "a menina e a mulher se acotovelavam dentro de Agustina, entregando-se a essas conversas e reservados exercícios femininos que, por tão bem os conhecer, Agustina com facilidade atribuiu a Paula Rego no maravilhoso 'As Meninas'".

Para o editor, aquele foi "o mais belo livro" que lhe foi dado publicar, "de texto tão irreverente, tão fino, tão caprichoso".

Sucessivamente, Agustina "escreveu para mim, depois de 'As Meninas', também a sua autobiografia até ao 25 de Abril, a que chamou 'O Livro de Agustina', dando-lhe por subtítulo 'A Lei do Grupo', o belíssimo texto com o provocantíssimo título 'Um Tijolo Quente na Cama', para prefaciar o 'Cântico dos Cânticos'".

Em "Fama e Segredo da História de Portugal", Agustina "resgatou a História de Portugal e os nosso heróis à chatice e ao convencionalismo, cantando-lhes a fatalidade com imaginação e um humor que desce às cavernas de Ali Babá da irrisão", descreve o editor.

"Morreu Agustina e ficou, com os seus vestidinhos leves, cabelos alourados, a menina que guardaremos para sempre: e a menina é um rio de palavras, sobressaltado rio de incertezas profundas. É mais do que literatura, é milagre infantil e criação do mundo", afirma Manuel S. Fonseca.

Agustina Bessa-Luís nasceu em 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante, e encontrava-se afastada da vida pública, por razões de saúde, há cerca de duas décadas.

O nome de Agustina Bessa-Luís destacou-se em 1954, com a publicação do romance "A Sibila", que lhe valeu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz.

Recebeu igualmente o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, em 1983, pela obra "Os Meninos de Ouro", e em 2001, com "O Princípio da Incerteza I - Joia de Família".

Foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015.

Sobre Agustina, o ensaísta Eduardo Lourenço disse, em declarações à Lusa, no final da cerimónia da entrega do prémio com o seu nome, que é uma autora "incomparável", a "grande senhora das letras portuguesas".

Em 2004, Agustina recebeu os Prémios Camões e Vergílio Ferreira.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, de Portugal, em 1981, elevada a Grã-Cruz em 2006, e o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, de França, em 1989, tendo recebido a Medalha de Honra da Cidade do Porto, em 1988.

Questionada sobre o que escrevia, a autora disse, num encontro na Póvoa de Varzim: "É uma confissão espontânea que coloco no papel".

A cerimónia fúnebre da escritora Agustina Bessa-Luís decorrerá na terça-feira, na Sé Catedral do Porto, seguindo depois para o cemitério do Peso da Régua, Vila Real, onde será sepultada "na intimidade da família", revelou hoje o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís.

O Governo declarou um dia de luto nacional, na terça-feira, pela morte da escritora.

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