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Agustina deixa "uma das obras mais importantes do século XX"

A escritora Agustina Bessa Luís, que morreu hoje aos 96 anos, deixa, para a também escritora Lídia Jorge, "do ponto de vista da ficção, uma das obras mais importantes do século XX".

Agustina deixa "uma das obras mais importantes do século XX"

"Agustina Bessa-Luís deixa, do ponto de vista da ficção, uma das obras mais importantes do século XX, e, como escritora, sem dúvida alguma, a mais importante", afirmou hoje Lídia Jorge, em declarações à Lusa.

Lídia Jorge classifica a obra de Agustina Bessa-Luís como "absolutamente extraordinária, multifacetada e que toca praticamente todos os géneros", salientando que "onde ela brilha com fulgor único é na ficção".

"Para ela, a análise dos comportamentos é o fundamental, e ela faz uma análise dos comportamentos nos romances que publicou, que são tantos, de um ponto de vista de uma espécie de exigência das suas personagens, que [estas] se movam na direção da ação", disse.

Lembrando que Agustina Bessa-Luís "sempre se assumiu não como uma feminista", Lídia Jorge destaca que a escritora "coloca-se na perspetiva das mulheres de uma forma única, defendendo essa perspetiva, mas não defende as mulheres como vítimas".

"Ela defende as mulheres como vencedoras, como lutadoras, como figuras de ação. Muita gente diz que a escrita dela é viril, mas não é viril, é forte, é voluntariosa, é diferente, é uma escrita em que as figuras femininas são voluntariosas, como ela própria era", considerou.

Para Lídia Jorge, a literatura de Agustina Bessa-Luís "é o prolongamento daquilo que ela era como mulher, como figura pública, como amiga, como pessoa".

"Era uma mulher de ação, ela tinha uma ação dentro dela, ela queria transformar as coisas e queria dar notícia dessa transformação, e toda a escrita dela é nesse sentido, no sentido de reclamar uma espécie de progresso que ela não define quais são os limites, mas é uma espécie de marcha, ela entende a marcha da humanidade", afirmou.

Lídia Jorge considerou que Agustina Bessa-Luís "fez isso com um vigor criativo e com um domínio da língua portuguesa que só se encontra nos escritores do século XIX, como Camilo [Castelo Branco]".

"Ela manteve-se nessa senda de buscar o português mais puro, o português múltiplo, vernáculo, tradicional, juntando o português moderno. Basta dizer que ela utilizou no texto que escreveu para o cinema, o 'Party' ela utilizou a palavra party [festa, em português]. Ela utilizava neologismos e estrangeirismos com todo o à vontade, como mulher moderna que foi", recordou.

Lídia Jorge defendeu ainda que "essa síntese que Agustina Bessa-Luís foi capaz de fazer, e a interpretação que faz, do mundo atual, do pós-modernismo, está patente de uma maneira absolutamente extraordinária no último livro que escreveu, 'A Ronda da Noite'".

"[O livro] mostra que ela foi uma mulher, além de uma grande ficcionista que explorou os lados poéticos da língua, que soube interpretar as patologias do nosso tempo, e exaltar também as virtudes do nosso tempo", afirmou.

Embora aprecie vários livros de Agustina Bessa-Luís, há um de que Lídia Jorge gosta em particular: "Fanny Owen".

"É uma obra gigante, uma obra gigantesca, um livro extraordinário, em que ela coloca o contraste entre figuras fortes e figuras fracas, as figuras românticas e as figuras que ultrapassam a espécie de melancolia romântica, e ela consegue fazer isso nesse livro com uma destreza absolutamente extraordinária. Para mim seria o livro de eleição da Agustina Bessa Luís", partilhou.

A escritora Agustina Bessa-Luís morreu hoje, aos 96 anos, disse à Lusa fonte da família.

Nasceu em 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante, e encontrava-se afastada da vida pública, por razões de saúde, há cerca de duas décadas.

O nome de Agustina Bessa-Luís saltou para a ribalta literária em 1954, com a publicação do romance "A Sibila", que lhe valeu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz, que constam de uma lista de galardões que inclui igualmente o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, em 1983, pela obra "Os Meninos de Ouro", e que voltou a receber em 2001, com "O Princípio da Incerteza I - Joia de Família".

A escritora foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015.

Sobre Agustina, o ensaísta Eduardo Lourenço disse que é "incomparável", é a "grande senhora das letras portuguesas", em declarações à Lusa, no final da cerimónia da entrega do Prémio Eduardo Lourenço à autora, há pouco mais de três anos.

Agustina recebeu ainda os Prémios Camões e Vergílio Ferreira, ambos em 2004.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, de Portugal, em 1981, elevada a Grã-Cruz em 2006, e o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, de França, em 1989, tendo recebido a Medalha de Honra da Cidade do Porto, em 1988.

Questionada sobre o que escrevia, a autora disse, num encontro na Póvoa de Varzim: "É uma confissão espontânea que coloco no papel".

Sobre a morte da escritora será emitido hoje um comunicado, pelas 15:00, através do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís, adiantou a família à Lusa.

O funeral realiza-se na terça-feira, segundo a mesma fonte.

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