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"Dançava kuduro na escola e depois ia ao São Carlos ver um bailado"

Os tempos de escola, a amizade com Conan Osiris, a vitória no Festival da Canção e o novo desafio da Eurovisão. Estivemos à conversa com o bailarino João Reis Moreira.

"Dançava kuduro na escola e depois ia ao São Carlos ver um bailado"
Notícias ao Minuto

09:00 - 05/04/19 por Sara Gouveia 

Cultura João Reis Moreira

Conhece o Conan Osiris desde criança, quando frequentavam a mesma escola. Rapidamente passaram a fazer parte do mesmo grupo de amigos, através da sua irmã mais velha. Depois de uma longa amizade, recebeu um convite para criarem uma atuação em conjunto e foi assim que passou a ser o bailarino arrojado e dinâmico que aparece nos espetáculos do vencedor do Festival da Canção. 

Em conversa com o Notícias ao Minuto, João Reis Moreira, revela como foi crescer com a paixão da dança e com o bullying que sofria na escola, bem como relata o papel fundamental que Tiago Miranda (o verdadeiro nome de Conan Osiris) teve para que deixasse de esconder quem era. 

Abordou ainda o momento da vitória no Festival da Canção, bem como os planos (ou falta deles) que a dupla tem para a Eurovisão. 

Como é que começa esta parceria entre si e o Conan?

Já nos conhecemos há muito tempo e há muito tempo que partilhamos os mesmos gostos musicais e pela dança. No início do ano passado, depois de ter lançado o álbum [Adoro Bolos] e de ter tido todo um buzz e uma atenção em redor disso, começaram a surgir os primeiros convites. Logo no primeiro ligou-me e disse: “Como já percebeste isto está a acontecer e as pessoas estão a dar muita atenção ao novo álbum. Queria saber se querias fazer uma apresentação comigo, eu canto e tu danças. O que achas?” e eu respondi imediatamente a dizer que achava perfeito. E foi assim que aconteceu.

Era uma coisa que já fazíamos, mas era em casa e em festas com os nossos amigos.

A minha mãe gostava de teatro, de ópera e de dança e, desde pequeno, levava-me para esses meios. Ou seja, dançava kuduro na escola e depois ia ao São Carlos ver um bailadoComo foi essa primeira apresentação pública?

Foi muito esquisita. Foi no Canal Q, não foi ao vivo, o programa era gravado e só passou na semana seguinte. Estávamos os dois mesmo nervosos, não sabíamos nada, nunca tinha feito nada assim. Fiquei sem saber e sem perceber se devia ensaiar ou não, porque a forma como eu danço a música, principalmente a dele, é sempre de uma forma muito espontânea. Mas acabou por correr ok.

No entanto, não foi nada comparado com a primeira apresentação live, em concerto. Foi passado um mês, na Galeria Zé dos Bois, estávamos os dois com uma camada de nervos no início, mas que desapareceu assim que começámos.

Como é que se conheceram?

Ele [Conan] era da turma da minha irmã mais velha e ficaram muito amigos. Entretanto, eu e a minha irmã, apesar da diferença de idades, também sempre tivemos uma relação muito próxima e por isso os nossos amigos eram os mesmos. Então acabámos por ficar amigos também.

O que Conan fez sem palavras, mas com aquela energia, foi mostrar-me que já tinha passado pelo mesmo do que eu, mas que não tinha mudado nadaNunca estudou dança, mas os seus movimentos arrojados já são considerados uma componente essencial para o espetáculo de Conan Osiris? De onde vem a inspiração? Como começou a dançar?

Tenho memórias de ser mesmo pequenino e de estar ao espelho a dançar. Sempre foi uma coisa que me interessou e que me saía naturalmente. Ao mesmo tempo achava bonito e despertava-me curiosidade como é que conseguia fazer aqueles movimentos.

A inspiração vem de muitos sítios, não consigo identificar bem, mas além de ser uma coisa que sempre esteve comigo de alguma forma, cresci no Cacém e quando passei  para o 5.º ano fui para uma escola em Mira-Sintra que, por ser dentro de um bairro social e na periferia de Lisboa, tinha pessoas de muitas nacionalidades. A convivência com essas pessoas da Ásia, da América Central, da Europa de Leste, de África, fazia com que quando havia uma festa estivessem presentes muitos estilos de música, principalmente africanos e muitos estilos de dança, às quais o meu corpo respondia.

Além disso tive uma educação de alguma forma um pouco mais privilegiada, porque a minha mãe gostava de teatro, de ópera e de dança e, desde pequeno, levava-me para esses meios. Ou seja, dançava kuduro na escola e depois ia ao São Carlos ver um bailado.

Não podia dançar ou fazer o que queria realmente porque isso poderia implicar que levasse uma chapada na cara e levei muitas só por ser diferenteSente que Conan foi responsável pela sua ‘libertação’ no que diz respeito à dança?

Não só da libertação, como do empoderamento, porque o que eu vivia na escola até conseguir dar a volta era bullying. Era muito pequeno, dançava, era do grupo de teatro e tudo isso era fora do comum e naquele contexto era razão para sofrer de alguma maneira. Bastava ser mais fraco.

Quando entrei naquela escola, depois da escola primária onde o ambiente era tranquilo, de repente havia pessoas de muito mais idades, muito mais culturas e nacionalidades e vi-me aflito naquela situação. Não podia dançar ou fazer o que queria realmente porque isso poderia implicar que levasse uma chapada na cara e levei muitas só por ser diferente. Então pouco a pouco, dançar foi uma coisa em relação à qual fui criando um preconceito, só dançava mesmo com os meus amigos, em espaços fechados, principalmente com raparigas, porque eram sempre muito menos preconceituosas comigo. Acabei por ir escondendo cada vez mais, só dançava no meu quarto de porta fechada.

Na primeira Passagem de Ano que passei com o Tiago [Conan], nem o conhecia muito bem. Tinha estado com ele umas duas vezes até aí e toda a gente na festa era mais velha do que eu seis ou sete anos, já estavam a acabar o secundário e eram uma inspiração para mim. De repente, vejo-o a dançar como eu nunca tinha visto ninguém. Tinha os meus ídolos da escola e da internet, mas era um homem e estava a dançar daquela maneira indescritível e num contexto que era real, ali no meio dos meus amigos. Lembro-me de ter pensado: “Este gajo dá-lhe bué”. O que é certo é que a determinado momento da festa as únicas pessoas que ainda se aguentavam a dançar éramos nós os dois, porque acabei por perder a vergonha.

O que ele fez sem palavras, mas com aquela energia, foi mostrar-me que já tinha passado pelo mesmo do que eu, mas que não tinha mudado nada, que estava ali e que estava a continuar a ser quem era, sem esconder.

Não estávamos mesmo nada à espera, mas cada vez mais ia parecendo que não havia escapatória, ia acontecer e ponto final. Foi ficando mais claro que ia ser ele o vencedorComo foi o momento da vitória no Festival da Canção? Estavam à espera?

Foi gradual. Não estávamos mesmo nada à espera, mas cada vez mais ia parecendo que não havia escapatória, ia acontecer e ponto final. Foi ficando mais claro que ia ser ele o vencedor e vimos aquela vitória com uma gratidão indescritível, principalmente quando percebemos que era uma coisa geral, que as pessoas tinham gostado mesmo e que tinha sido importante para elas, que aquele espetáculo que lhes entrava em casa estava a ser bem recebido e apoiado por um país inteiro. Foi mesmo impactante.

No meu caso, pelo menos, tive de ver aquilo tudo a acontecer à minha frente em… cinco minutos. Não estava preparado, não estava nada à espera.

Caiu logo a ficha? Falaram sobre o que estava a acontecer?

Foi caindo, mas era bem leve, foi um processo lento. A cada hora que ia passando ia caindo mais um pouquinho, mas foi complicado. Falámos sobre o que se tinha passado e além disso temos uma maneira de comunicar um com o outro em que não precisamos de muitas palavras, costumamos estar a pensar exatamente a mesma coisa e conseguimos entender-nos só com um olhar.

Tivemos muito pouco tempo sozinhos, mas quando voltámos a Lisboa tivemos o nosso momento e conversámos. Essencialmente partilhámos a visão da realidade de cada um, para nos prepararmos para o futuro e darmos força um ao outro. Reconhecemos que aquilo ia mudar o nosso percurso, ia mudar a nossa vida pessoal, porque ia entrar na nossa vida pessoal de alguma maneira e que tínhamos de nos preparar para isso.

Já eram fãs do Festival da Canção e da Eurovisão?

Não, não éramos. O Conan foi convidado diretamente pela RTP, resolveu aceitar e sabíamos ao que íamos. Toda a gente sabe as canções vencedoras do Festival da Canção, é um evento cultural incontornável em Portugal. Lembro-me dos meus pais falarem imenso sobre isso e até de me sentar a ver com eles os mais antigos. Mas como era pequeno quando os meus pais se desligaram do programa, já não ganhei esse hábito. Aliás hoje em dia nem sou nada de ver televisão, vejo muito pouco.

Mas claro que quando houve o boom do Salvador [Sobral] vi e o ano passado por ter sido cá também. Mas é muito recente.

No início foi super complicado porque foi um choque, foi uma mudança de realidade gigante, de poder andar na rua sem ter a atenção de ninguém e depois de andar na rua com a sensação de que era um foco de atenção Como tem sido lidar com este mediatismo todo?

Foi tudo muito rápido, então não senti que tivesse sido uma coisa passo a passo, houve ali uma parte em que tive de correr um bocadinho. Mas acho que sim, que tem sido fácil. No início foi super complicado porque foi um choque, foi uma mudança de realidade gigante, de poder andar na rua sem ter a atenção de ninguém e depois no espaço de um mês a diferença era de andar na rua com a sensação de que era um foco de atenção.

Passou a ser um pouco desconfortável, mas as pessoas tratam-me muito bem e o cérebro tem de acompanhar. Tive de lidar com aquilo, mas quando me habituei e passei a reconhecer que aquilo era uma realidade nova, deixou de ser desconfortável.

Ainda estranho que alguém venha ter comigo a dizer que gosta de mim e que quer tirar uma fotografia. Ao mesmo tempo em que é muito gratificante, também é estranho porque não conheço aquela pessoa e não tenho nada para lhe dizer de volta quando está a dizer tantas coisas boas sobre mim.

Mas às tantas assumo que não posso fazer nada e que tenho é de aproveitar estes momentos singulares com pessoas que me admiram. É uma riqueza enorme.

Têm sentido pressão adicional pela visibilidade com que já contam lá fora?

Acho que posso falar pelos dois e dizer que não, não causa mais pressão. Se as pessoas gostam, gostam, de resto nem eu nem ele [Conan] damos atenção ou vamos à procura de comentários negativos.

Quando vejo comentários negativos que são tão maus que dão para serem engraçados até gosto, porque ao menos dá para rir. Mas normalmente não procuro. A única coisa que vem ter comigo são os bons e acabam por reforçar o que estamos a fazer. É mais alguém que acredita em nós.

Mas nem os bons nem os maus se traduzem em pressão.

E no caso dos comentários positivos? Mesmo de colegas de profissão, do meio artístico, como têm sido recebidos por vocês?

Acho que não há uma grande diferença. Claro que quando é alguma pessoa que admiramos e que nos admira de volta é incrível, sente-se logo uma troca e um círculo bom. É gratificante e deixa-nos feliz. Mas é um carinho tão genuíno como o das outras pessoas que nos abordam na rua e nos dizem coisas maravilhosas.

Obviamente têm valores diferentes e representam universos diferentes, como quando conheci o Dino d’Santiago e me disse o que achava do nosso espetáculo, antes até do Festival da Canção, claro que aquilo foi lisonjeador, por ser alguém que admiro.

Quando chegarmos a Telavive e sentirmos a temperatura que vai estar, quando sentirmos o cheiro daquela terra, quando virmos o palco, logo vemos o que vai acontecerComo vai ser em Telavive? Já têm tudo preparado?

Nadinha preparado [risos].

Mas no caso do Festival da Canção não prepararam uma coreografia, apenas alguns dos passos, improvisaram o resto. No caso da Eurovisão, vão recorrer ao mesmo método, é isso?

Quando chegarmos lá e sentirmos a temperatura que vai estar, quando sentirmos o cheiro daquela terra, quando virmos o palco, logo vemos o que vai acontecer. Ainda há um processo mental que ainda está a acontecer, estão várias coisas em aberto, muitas mesmo.

Na música ‘Telemóveis’, o Conan Osiris canta sobre partir o telemóvel, nunca teve medo de, neste caso, partir o cóccix, com a queda que faz durante a atuação?

[Risos] Muito bem! Nunca, nunca tive medo de partir o cóccix, as pessoas acham que não, mas eu sei cair. Se há coisa que sei é cair e levantar-me, mostrei isso bem. Ainda não há cá muita difusão de vários estilos de dança, mas se vissem o kuduro na sua essência e raiz iam ter muito mais medo por aqueles kuduristas do que por mim, porque o que eu fiz nem é muito perigoso, é fácil.

A posição [sobre o apelo ao boicote à Eurovisão em Israel] é do Conan, porque ele é que é o artista e o nome, ele é que é a máquina. A posição dele é bastante clara, só não é públicaReceberam um apelo do antigo músico dos Pink Floyd, Roger Waters, para boicotarem o Festival da Eurovisão como forma de protesto pela ocupação israelita da Palestina. Foi algo que ponderaram fazer?

Claro, foi uma coisa sobre a qual conversámos várias vezes e tomámos várias decisões e posições. A posição é do Conan, porque ele é que é o artista e o nome, ele é que é a máquina.

A posição dele é bastante clara, só não é pública. Mas há muitas coisas que vão acontecer na carreira dele, que começou agora, tem um ano. Há muitas coisas que vão acontecer pela voz dele e pelo espetáculo dele, mas conversámos sobre isso, sim.

Mas podemos dizer com segurança que vão atuar, certo?

É em maio, pode acontecer muita coisa até lá. Posso ter um acidente amanhã ou ele pode receber uma proposta para ir plantar ananases nos Açores, ninguém sabe nada. Temos até lá, ainda falta.

Como vai ser se vencerem a Eurovisão? Já pensaram ou falaram sobre isso?

Claro que não [risos]. Nós tivemos de nos preparar para aquele momento de vencer [o Festival da Canção] em cinco minutos. Se as pessoas soubessem como é... Houve alguns comentários sobre a nossa reação durante o momento em que esperávamos para saber se tínhamos vencido e se estivessem lá ao nosso lado iam perceber que foi tudo tão estranho, foi uma preparação para uma coisa enorme em cinco minutos. Se isso acontecer em Telavive eu nem quero imaginar, acho que vou ter de estar lá para ver qual é que vai ser a minha cara [risos].

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