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Artistas já trabalham no Manicómio em Lisboa e bem longe dos hospitais

O espaço do projeto Manicómio, em Lisboa, dedicado a artistas com doenças mentais, só é inaugurado no final do mês, mas já há artistas a trabalhar, ao lado de 'start-ups', trabalhadores independentes e bem longe do hospital.

Artistas já trabalham no Manicómio em Lisboa e bem longe dos hospitais
Notícias ao Minuto

09:25 - 03/03/19 por Lusa

Cultura Projeto

O espaço está integrado no 'coworking' NOW, no Beato, e a área do projeto está sinalizada com um 'néon' azul onde se lê: 'Manicómio/based on a true story' (baseado numa história real, em português). As paredes, para já despidas, irão acolher obras dos artistas que ali trabalham.

No total são dez, escolhidos por Sandro Resende e José Azevedo - responsáveis do projeto e fundadores da Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico P28, que dá aulas de artes plásticas a doentes do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa há cerca de 20 anos - pela qualidade do que fazem, independentemente do historial de doença mental.

Numa visita ao espaço, esta semana, a Lusa encontrou dois deles a trabalhar.

Carlos, de 60 anos, começou há cerca de três a dedicar-se às Artes, no Júlio de Matos, na terapia ocupacional, embora já tivesse "formação em desenho, mas era desenho técnico", fazia "esboços de máquinas".

No Manicómio dedica-se a fazer maquetes. "Vou fazer a maquete de uma casa, mas com conceitos novos, que não têm necessariamente que ser aplicados na prática", revelou.

Além disso, continua a ir ao hospital, onde nunca chegou a estar internado, "para fazer cerâmica", onde está integrado no projeto Rádio Aurora.

Para Sandro Resende e José Azevedo era "muito importante" que as pessoas pudessem "ter um espaço condigno e que não tenha estigmas associados". "Por isso mesmo, o nascimento deste projeto, num espaço novo, fora dos muros hospitalares", afirmou Sandro Resende, em declarações à Lusa, em novembro.

Carlos sente no novo espaço "um ambiente muito mais afastado de todos os problemas que se sentem bastante lá dentro [no hospital] e que acabam por afetar".

"Aqui não, é um ambiente completamente saudável, gosto muito. Apesar de não ter obrigação de horário, todos os meus tempos livres - em que não estou na terapia ocupacional nem na rádio - estou aqui", partilhou.

Até chegar ao Beato ainda faz "algumas horas todos os dias nos transportes". Se ali está, "é mesmo" porque lhe agrada. "Sinto-me perfeitamente à vontade, confortável. Sinto-me mesmo bem. tem sido uma boa oportunidade que tive", confidenciou.

Até precisar de ajuda psiquiátrica, Carlos teve uma vida "perfeitamente normal", mas "muito agitada e muito ocupada, trabalhava muitas horas". Esteve 22 anos numa multinacional, até ter decidido, "quando começou a deslocalização das fábricas", montar uma empresa.

"Pensei que era uma altura de relaxar um bocadinho mais e foi exatamente o contrário. Apanhei a crise, foi uma luta permanente, e todo o tempo que lá estive acabei por me esgotar completamente. Foi isso que levou às consultas e a afastar-me do trabalho. A empresa ainda existe, mas eu afastei-me para não voltar ao mesmo", contou.

Hoje, Carlos tem noção de que "a procura de ajuda foi tardíssima".

"Na fase em que trabalhava por conta própria se calhar era mais fácil, até porque em termos de estigma era mais fácil procurar, mas mais difícil por uma questão de disponibilidade. Quando se está a trabalhar numa empresa é completamente impossível, porque isso é logo lançar uma série de alertas. Não é que as pessoas sejam afastadas, mas se calhar não são tão chamadas, porque se cria uma certa proteção, do lado da empresa e do lado da pessoa, porque não sabemos até onde é que podemos contar com ela", disse.

Admitindo que noutra altura poderia também ter estigmatizado alguém, defende que "as pessoas que têm problemas são completamente válidas".

"Podem não ser válidas no tempo todo, podem não ser válidas nas tarefas todas. É um desperdício que se faz afastar as pessoas. Hoje tenho noção disso", afirmou.

Com o trabalho artístico descobriu "uma paciência" que nunca teve.

"Pode ter que ver com muitas coisas, mudança de vida, disponibilidade que não existia, alguma tranquilidade de os objetivos serem marcados por nós", referiu, sublinhando que nota "uma diferença enorme de comportamento".

Em relação ao talento, "se é que há algum", acredita que "estava lá, foi uma questão de trabalhar".

A experiência de Cláudia R. Sampaio, de 37 anos, é completamente diferente da de Carlos. Há dois anos que "pintava sozinha em casa", além de escrever. Tem livros publicados e uma peça sua chegou ao palco da Culturgest. Apesar de ter estado três vezes internada no Júlio de Matos, foi já fora do hospital que chegou a Sandro Resende e José Azevedo.

"Enquanto estive internada nunca conheci o Sandro, foi uma iniciativa minha cá fora. Descobri uma entrevista dele e estava interessada em mostrar o meu trabalho a galeristas", contou. E assim fez. Mostrou-lhes o trabalho, eles contaram que iam avançar com o Manicómio e quiseram saber se estaria interessada em participar.

Apesar de não ter feito terapia ocupacional no hospital, consegue apontar diferenças entre criar dentro e fora dos muros hospitalares.

"Consigo imaginar porque conheço muito bem o hospital, além dos internamentos tenho consultas lá, e há regras para tudo. Principalmente na arte, temos que estar bastante disponíveis e sentir o mínimo de liberdade possível para criar. Não nos sentirmos com uma pressão estranha e negra", partilhou.

Ali, apesar de não haver a imposição dos horários, achou que "começar a ter uma rotina" e 'obrigar-se' "a estar com outras pessoas" iria fazer-lhe bem. "E está a fazer", confidenciou.

Com idades diferentes, histórias de vida diferentes e questões mentais de graus diferentes, acabam por conviver diariamente, almoçando ou fazendo pausas juntos.

Para Cláudia, o facto de ter nas mesas ao lado pessoas com "experiência de hospital", fá-la sentir-se "acompanhada, porque eles percebem".

"Se um dia eu estiver pior, num emprego normal não ia poder partilhar, aqui se um dia estiver mais em baixo eles todos vão perceber. Ninguém me vai julgar", explicou.

Já na sociedade, a relação com as doenças mentais, "não mudou nada, está tudo igual".

"Claro que houve evolução e antigamente um hospital psiquiátrico era uma coisa inimaginável. Mesmo na própria psiquiatria, nos medicamentos. Já se fala mais sobre as coisas, mas no ponto de vista de uma pessoa que não esteja enquadrada nesse mundo, só o facto de alguém dizer 'sou doente mental' leva logo a toda uma imaginação de que se está a falar com um maluquinho ou uma pessoa sem capacidades", afirmou.

Mas Cláudia lembra que "grandes génios da história da arte tinham problemas mentais de vários estilos". Para ela, são só "pessoas com uma sensibilidade diferente".

"O nome do meu distúrbio é só um nome. O que eu experiencio com o meu distúrbio é que tenho uma sensibilidade que me atrapalha a vida, que me faz ter mais dificuldade que uma pessoa dita normal em encarar o dia a dia", disse.

Até ser internada a primeira vez, tinha "um trabalho normal". E nas horas de trabalho "estava normal", mas "chegava a casa e queria morrer". "Era assim todos os dias, uma oscilação constante no meu estado de humor que os outros não percebiam. Na minha cabeça não achava possível que não se percebesse e achava bastante visível", partilhou.

Quando questionada sobre se teria criado uma fachada, admite que "no fundo há uma fachada, que é instintiva do ser humano". "Até ao último momento a tentar ter um emprego e uma vida normal, e esse instinto fazia-me estar a lutar por isso", contou.

Muitas vezes ouviu que "era só mimada", que "estava a chamar a atenção", que "há coisas piores na vida, pessoas com cancro, a morrer à fome". "Mas qual distúrbio? Isso não existe. É tudo inventado pelos psiquiatras", chegou a ouvir também.

O espaço onde agora Cláudia desenvolve o seu lado artístico "é um local de trabalho absolutamente normal".

"Aqui não estamos à parte, estamos ao lado, cada um na sua empresa, no seu mundo. Toda a gente convive aqui muito bem", referiu.

Cláudia não sabe se quando começaram a ir para ali, quem lá estava "tinha bem percebido o que era isto". Mas com o 'néon' azul e o entra e sai de jornalistas, já não há como não saberem. E a atitude mantém-se a mesma.

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