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"Não canto fado como a Amália cantava. Não consigo e tentar é estúpido"

Os Amor Electro são uma das bandas a marcar presença este sábado na homenagem a uma das maiores fadistas portuguesas, Amália Rodrigues, e Marisa Liz esteve à conversa com o Notícias ao Minuto.

"Não canto fado como a Amália cantava. Não consigo e tentar é estúpido"

Traz o coração na voz, canta o que lhe vai na alma, sente cada verso, cada acorde das músicas que leva ao palco. É uma eterna apaixonada e acredita que é no amor que está a essência da vida. E é este romantismo que a leva a carimbar as letras que escreve com um 'twist' positivo. 

Este sábado, dia 16 de fevereiro, sobe ao palco da Altice Arena para homenagear um dos maiores ícones do fado português: Amália Rodrigues. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, a vocalista dos Amor Electro recorda, com visível nostalgia, a infância e os momentos em que, com avó, aprendeu a ouvir os fados de Amália. 

Um misto de emoções, que oscilou entre o receio e o entusiasmo, foi o que sentiu quando recebeu o convite para integrar o 'Amar Amália'. Marisa Liz irá, neste espetáculo, cantar três músicas da fadista, que não pode ainda revelar. O secretismo só será desvendado assim que o 'pano' subir e a banda entrar em palco. 

Uma entrevista que, de resto, não passou à margem da análise do percurso dos Amor Electro que, confessou, nunca tiveram a pretensão de revolucionar o panorama da música portuguesa. Fiéis a si próprios, os Amor Electro compõem e cantam "à sua maneira". 

Marisa Liz dispensa apresentações. Detentora de uma voz versátil e de um timbre único, a vocalista deixa transparecer um brilho nos olhos quando fala de música. Afinal, este é o mundo pelo qual se apaixona todos os dias. 

Como dizia o Variações, todos temos uma Amália na vozVinte anos sem aquela que é considerada a maior diva do fado. Como é recordar Amália? Como é ‘Amar Amália’?

A Amália, na minha vida, vem desde os tempos de infância. Foi daquelas vozes que me marcou desde que era muito pequenina e recordo-me de a ouvir com a minha avó, que me explicava quais eram os fados que gostava mais e menos. E a minha família sempre gostou que eu cantasse o fado de vez em quando, apesar de não ter seguido esse caminho.

Porém, como dizia o Variações, “todos temos uma Amália na voz” e aquilo que acontecia era que, por mais que eu não tivesse seguido esse caminho, sempre que cantava um fado da Amália, saía-me de uma forma muito natural. Não como a Amália cantava porque nem sequer o tento, em primeiro lugar porque não consigo, em segundo porque é só estúpido.

Sempre admirei a Amália Rodrigues por vários motivos: pelo batimento dela, pela verdade e pela força de cantar. Havia aquela magia e entrega que é impossível de ser falsa durante tanto tempo; aquilo era dela. E tornou-se obviamente um marco do nosso país. É muito bonito quando vais para fora de Portugal e se fala na Amália. A voz dela era sentida não só pelos portugueses, mas pelo mundo inteiro.

 A música não tem línguaMesmo sem se perceber a letra, sente-se...

Quando fomos tocar a Macau, estavam lá vários macaenses e no final do concerto houve um que me disse: “Não percebi nada do que disse, mas sabia que estava a falar de amor”. E isto é daquelas coisas que passa porque a música não tem língua. E passa sentimentos e emoções. A Amália era assim, tinha a capacidade de o fazer e de transportar para uma mensagem ao mais alto nível.

Há algum fado da Amália que a toque de forma particular?

Há vários.

O ‘Barco Negro’ é um deles?

Sim, apesar de não ser um fado português, mas sim uma canção trazida do Brasil que foi imortalizada cá pela Amália como  ‘Barco Negro’ e pelo David Mourão Ferreira, que refez a letra.

Esse é um dos fados que vai cantar este sábado, no ‘Amar Amália’?

Os Amor Electro vão interpretar três temas da Amália à nossa maneira. E é assim que tem de ser porque não sabemos fazer de outra forma.

Como recebeu o desafio de integrar esta homenagem a este nome icónico do fado português?

É um risco, um desafio. Quando recebi o convite e soube que ia acontecer, tive cinco emoções diferentes, entre estar entusiasmada, preocupada, me apetecer fugir, emocionada por fazer parte disto com os Amor Electro e por nos ter sido dada a liberdade de realmente cantarmos e sentirmos esta música como nossa e transmitir isso no palco.

E essa é melhor forma de homenagear Amália?

É muito bonito ter vários artistas, de estilos diferentes, onde todos eles se podem unir à volta de uma voz, de uma personalidade, cada um à sua maneira mas todos juntos por um motivo e esse motivo é a Amália Rodrigues.

Notícias ao MinutoMarisa Liz, vocalista dos Amor Electro© Global Imagens

O fado, e nomeadamente o da Amália, é uma influência na música da Marisa Liz e dos Amor Electro?

Os Amor Electro surgem pelas influências que cada um tinha individualmente e que se uniram. Eu tinha a parte mais tradicional, de ouvir mais fado e música brasileira. Ouvi muito Elis Regina, Caetano [Veloso] e toda essa cultura da música popular brasileira. Depois há tendências que são comuns e que nos uniam como os Queen, os Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd; coisas mais anglo-saxónicas que nos seduziam.

Já o Tiago vinha de um domínio mais eletrónico e rock pesado. O Ricardo do jazz, o Rui de uma vertente tradicional também. E foram essas influências que se uniram, sendo que o Tiago ficou encarregue de nos defender; de a voz de cada um de nós estar presente.

O nosso intuito não é revolucionar nada, nunca foiEm quase oito anos, os Amor Electro têm conseguido revolucionar aquilo que é a música portuguesa?

O nosso intuito não é revolucionar nada, nunca foi. O nosso intuito é fazer música, à nossa maneira. Se calhar aquilo que nós fizemos ao início nunca foi muito tabelado por aquilo que estava a bater. Obviamente que temos noção do mercado e do ano em que vivemos. Somos uma banda urbana que fala das coisas que estão à nossa volta e somos porventura um bocadinho revolucionários no amor e em sermos felizes. Não desistimos dessa ideia.

Somos porventura um bocadinho revolucionários no amor e em sermos felizes. Não desistimos dessa ideiaEm tempos disse que sente que tem de “acabar as letras” que escreve “com uma nota positiva. Há sempre a possibilidade de a história triste acabar de forma feliz”. É com esta positividade que encara a música?

Sou muito teimosa. Foi inconsciente, mas quando comecei a fazer as letras e me deparei com essa situação, que uma grande percentagem das letras acabava com um ‘twist’ positivo, questionei-me quanto ao motivo. Seria para ter uma nota positiva para mim? Seria para os outros? Depois comecei a pensar que nunca sabemos quem vai ouvir a nossa música. E dava por mim a pensar: será que aquela pessoa está a ouvir aquela música agora, naquela situação específica? E quando acabar não vai ter nada aqui que possa dar a volta. E acabo por dar o ‘twist’. E já estive com pessoas que me confidenciaram que a nossa música tinha uma importância que eu não imaginava. A música tem esse poder e teve comigo desde que nasci. Mas nunca acreditas que a música vá ter o mesmo poder noutra pessoa.

É um caminho meu aquele que tenho de fazer e perceber que há histórias que às vezes são tristes e explorar também esse lado. Tenho de aprender a gerir este lado da escrita sem me magoar quando estou a cantar porque sinto muito as coisas. Geralmente essas letras vêm de outros a quem eu peço para escrever. E até hoje aconteceu nos Amor Electro em canções que eu sabia que aquilo tinha de ir para um sítio mais ‘dark’. Sou eu que as canto, dou a parte ‘dark’, sinto dessa forma, mas é diferente.

Quase oito anos, três discos. Nesses álbuns é evidente a evolução da banda?

Sim, pelo menos no nosso ponto de vista. A interpretação que damos, o cuidado que temos a fazer as coisas e até se calhar na liberdade que temos a mais e na pressão que temos a menos. Acho que sentimos cada vez menos pressão, o que também é estranho porque nada está garantido.

Em 2013 editaram o (R)evolução. Passaram-se cinco anos até que editassem um novo disco, o #4. Porquê este hiato?

Não foi bem esperar cinco anos porque as coisas estão tão diferentes. Fomos lançando singles e as coisas funcionam um bocadinho como há 40 ou 50 anos, em que tinhas os singles e só mais tarde o vinil maior.

Durante esses cinco anos tivemos a necessidade de ir compondo, mas sem aquele planeamento de ‘vamos fazer um disco’. E como agora temos a possibilidade de termos o ‘studio one’ que é nosso, há uma liberdade maior de podermos vir para aqui e se for preciso estarmos até às 4h da manhã a compor, a criar. E tudo vai fluindo e o álbum foi-se montando de forma mais livre, mais calma e tranquila. Fomos lançando temas e canções que acreditávamos que queríamos dizer nesse momento, como foi o caso do ‘Juntos somos mais fortes’, do ‘Sei’, do ‘Procura por mim’ e depois, então, ‘A miúda do café’ que saiu com o disco.

Não sinto que tenham sido cinco anos sem discos. Estivemos a tocar muito ao vivo e tivemos outros projetos, nomeadamente a ‘Nação Valente’ que é a nossa agência e a ‘Dragon Records’ do Tiago. Estamos com uma vontade muito grande de pôr malta em que acreditamos cá fora e que o público conheça a música que eles fazem. Não só como músicos mas como pessoas, acreditamos que têm todas as capacidades.

Este é também um disco com participações especiais.

Tive a possibilidade de contar com a participação de Fernando Tordo, que me deu o gosto de partilhar a música comigo. E ele é ‘só’ um dos maiores letristas do nosso país. É um motivo de orgulho e recordo-me de ter ligado à minha família a contar a novidade.

Não tivemos medo de pensar que um tema não tinha nada que ver com o outro, ‘whatever, vamos embora’Diz-se que o #4 é um disco mais eclético. Porquê?

Sim, porque ouve-se o disco e, de canção para canção, percebe-se que há estilos próprios que não se unem tanto como nos outros discos. Se calhar temos um tema mais funk, outro mais rock, outro mais pop. Se calhar no primeiro disco as músicas tinham um registo mais pop, depois mais rock. Obviamente que temos as nossas fusões, que são os nossos estilos. Este disco esteve mais focado canção a canção e não tivemos medo de pensar que um tema não tinha nada que ver com o outro, ‘whatever, vamos embora’.

É um terceiro disco com ‘cheirinho’ a quarto (#4)?

Não. O terceiro disco tem muita pressão, diz-se que representa a consagração de uma banda e nós decidimos chamar ‘#4’ para não haver essa tensão, apesar de este ser um argumento completamente parvo. Mas foi um deles. E quando estivermos preparados para o tal terceiro, daqui a cinco, 20 ou 40 anos, então sim editaremos o álbum para a consagração, ou não.

Como é a relação dos Amor Electro com o público?

É brutal. De entrega total, tanto do nosso lado como do deles.

O facto de cantarmos em português não é uma barreira, mas sim uma armaE com o mercado internacional?

É muito diferente. A maior parte das bandas que consegue ir lá para fora está muito ligada não só à parte tradicional, mas à popular. Acreditamos que o facto de cantarmos em português não é uma barreira, mas sim uma arma. Acho que qualquer pessoa deve ter a liberdade de fazer arte da forma que entender, se não deixa de a ser e não se consegue ser completamente honesto.

O que temos feito tem corrido bem, tem sido devagar e com calma, temos conseguido ir tocar a alguns festivais onde está inserida música portuguesa e, aliás, ganhámos há uns anos um prémio importantíssimo, ‘The Ziva Award’, dado pela União Europeia. Fomos uma das três bandas portuguesas a conseguir ganhá-lo a cantar em português, num sítio onde mais ninguém falava essa língua, mas que sentiam o que estávamos a fazer. Houve muitas pessoas que nos disseram que iam tentar fazer a tradução para perceber o que estávamos a dizer.

No fundo, são como nós porque somos um povo que ouve música de todo o mundo, seja ela italiana, espanhola ou africana. Provavelmente não temos tantos povos a fazer o mesmo e a ter a mesma abertura, mas quanto mais formos direcionados para a necessidade de partilha a nível musical, mais felizes seremos. 

E a relação entre os membros da banda? São, como se diz, uma família?

Sei que parece um pouco cliché, mas nós somos mesmo amigos; daqueles que se chateiam, preocupam, choram, dão abraços, pedem desculpa, gritam e a seguir ajoelham-se no chão a pedir perdão, daqueles que num dia dizem que vão sair da banda e no outro não podem viver sem ela. Temos uma banda porque somos mesmo amigos. Aliás, a banda juntou-se por causa disso.

Uma banda com pais e mães. Há tempo para a família?

Todos os elementos da banda têm filhos. Conhecemo-nos há muitos anos, éramos uns ‘putos’ e fomos crescendo juntos e a família foi aumentando. Continuamos a crescer, a ter filhos e o rock and roll não parou. Agora é levar as crianças connosco sempre que é possível e gerir as coisas de outra forma. E temos regras como não tocar nos dias de aniversário dos nossos filhos. Temos é de parar de ter filhos, senão daqui a pouco deixámos de tocar. Já há nove datas fechadas [risos].

Às vezes é importante darmos um passo atrás para depois darmos dois em frente e percebermos de onde vimos para percebermos para onde vamosO mercado português reconhece os músicos que tem?

Cada vez mais a música portuguesa está a ser acarinhada. Há uns anos, quando o país passou uma crise agressiva, as pessoas tiveram necessidade de se unir. Nessas alturas tens de ir às tuas profundezas, ao que te une e ao que aprendeste; tens de voltar à tua simplicidade. E isso fez-nos virar um bocadinho para dentro. Por isso, desde há uns anos que começámos a dar um bocadinho mais de valor àquilo que é feito aqui. Temos profissionais e capacidades tão ou melhores que toda a gente. Sou portuguesa, defendo Portugal, mas antes de defender o meu país, defendo o mundo, o ser humano e o ser vivo. Todos nós temos capacidades e às vezes é importante darmos um passo atrás para depois darmos dois em frente e percebermos de onde vimos para percebermos para onde vamos.

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