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Ironia e alegria de 'Karl Valentin Kabarett' apresentada em Loulé

A ironia dos textos de Karl Valentin e a alegria em cena do encenador Ricardo Neves-Neves marcam a peça 'Karl Valentim Kabarett', que vai ser apresentada no concelho de Loulé, nos dias 09, 10, 16 e 17 de agosto.

Ironia e alegria de 'Karl Valentin Kabarett' apresentada em Loulé
Notícias ao Minuto

19:30 - 03/08/18 por Lusa

Cultura Teatro

A cerca do convento de Loulé e o largo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, em Querença, são os locais onde vão decorrer as quatro representações da peça do Teatro do Elétrico, que o encenador algarvio Ricardo Neves-Neves estreou em julho de 2017, no Teatro da Trindade, em Lisboa, integrada na programação do 34.º Festival de Almada.

O espetáculo mostra o 'constante complexo de inferioridade' das personagens de Karl Valentim, mas também 'a alegria dos atores em cena', como disse à agência Lusa o encenador e diretor artístico do Teatro do Elétrico, Ricardo Neves-Neves, na altura da estreia.

'Quero trabalhar com os atores a alegria de estar em cena (...), o brilho que conseguimos ver-lhes nos olhos, mais do que a alegria dos textos', disse então.

Sem, contudo, deixar de mostrar o lado melancólico de cada uma das personagens, Ricardo Neves-Neves sublinhou que as figuras de Karl Valentin vivem sempre 'numa constante inferioridade em relação ao mundo', e em situações 'que não são alegres, apesar de se rirem'.

Dos textos de que partiu para construir o espetáculo - que estão traduzidos por Almeida Faria, Jorge Silva Melo, Luiza Neto Jorge e Maria Adélia Silva Melo, publicados na Cotovia - Ricardo Neves-Neves acabou por selecionar os de que mais gostava, uma vez que já tinha trabalhado alguns com alunos da ACT-Escola de Atores.

Para complementar os textos do autor alemão nascido em Munique, em 1882, que chegou a trabalhar como marceneiro antes de iniciar uma carreira de cantor popular nas cervejarias de Munique, o encenador incluiu no espetáculo canções de repertório popular alemão de finais do século XIX, início do século XX.

Entre as canções incluídas no espetáculo, que falam de coisas banais e serão legendadas em português, conta-se uma sobre um cacto que está pendurado numa janela, e que vai picando os mais atrevidos que passam pelo local.

'Kleine Lulu' ('Pequena Lulu'), uma rapariga com que todos sonham, e um homem extremamente individualista que assegura que consegue fazer tudo sozinho exceto beijar, são alguns dos protagonistas dos textos de Valentin Ludwig Fey, que só viria a assinar como Karl Valentim, depois do seu primeiro grande êxito, 'O aquário', de 1907.

A ironia dos textos de Karl Valentim está patente nos diferentes quadros. É o caso daquele em que Fernando Gomes lê uma carta à filha, datada de fevereiro de 1932, na qual a informa de que terá de pagar ao pai a 'conta da sua existência até à maioridade', num total de '22 contos e 162.700 réis', sob pena de recorrer às instâncias judiciais (a que acrescenta um abatimento de dez por cento).

Ou o que é interpretado por Elsa Galvão, quando lê uma carta que escreveu ao seu amado a questioná-lo sobre os motivos pelos quais ele não lhe responde, num círculo vicioso de evidências.

Interpretam 'Karl Valentin Kabarett' Elsa Galvão, Fernando Gomes, Joana Campelo, José Leite, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tadeu Faustino, Tânia Alves e Vítor Oliveira, além de Tiago Amado Gomes, no canto lírico.

A orquestra é composta por Francisco Andrade (saxofone tenor), Ivo Rodrigues (trompete), José Almeida (baixo), José Massarão (saxofone alto), Marcos Lázaro (violino), Rui Pereira (bateria), Simon Wadsworth (piano), Tomás Pimentel (trompete), Xavier Ribeiro (trombone), dirigidos por Rita Nunes (também no saxofone alto e barítono).

Com sonoplastia de Sérgio Delgado e apoio vocal de João Henriques, a peça tem cenografia de Tiago Careto, figurino de Rafaela Mapril.

Desde a estreia, a peça tem andado em digressão por cidades portuguesas, e foi apresentada em Quarteira, cidade natal de Ricardo Neves-Neves, em julho do ano passado.

Karl Valentin, depois de não ter encontrado substituta à altura da parceira com quem partilhara o palco durante quase 30 anos, e que conhecera em 1908, o autor, retirou-se para a sua casa de Planegg, também no município de Munique, em 1942.

Viria a morrer de pneumonia, em 1948. Na década de 1970, o teatro de Karl Valentin foi redescoberto e reconhecido por especialistas como um dos maiores autores cómicos de sempre.

Karl Valentin chegou a ter Bertolt Brecht na sua orquestra, a frequentar os seus espetáculos e a reconhecer a sua influência.

Sobre a obra do dramaturgo alemão, Samuel Beckett comentou, em 1937, após ter assistido a um espetáculo do autor: 'Rimos tristemente'.

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