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Obra de Joaquim Correia propõe retrato musical da presença lusa na Índia

O investigador Joaquim Correia propõe-se fazer o "retrato musical" dos últimos anos da presença portuguesa na Índia, na sua obra "Última Dança em Goa", recentemente publicada.

Obra de Joaquim Correia propõe retrato musical da presença lusa na Índia
Notícias ao Minuto

17:06 - 19/06/18 por Lusa

Cultura Investigador

O autor salienta o papel do catolicismo na região de Goa, designadamente, das escolas jesuítas, empenhadas no ensino da Língua Portuguesa através da arte da música, e afirma que a "ligação dos goeses católicos à música manifestou-se não apenas no folclore luso-oriental, com danças mestiças como o 'mandó', o 'dulpod' e o 'deckni', mas também na própria vivência cultural em todo o chamado Estado da Índia Portuguesa, onde sons e instrumentos distintos da tradição indiana pululavam nas festas, bailes e rituais religiosos".

"Não foi por acaso que tantos músicos goeses, principalmente ligados ao jazz, foram tão importantes em Dar es Salam, Karachi e principalmente Bombaim, a partir dos anos 30 do século XX", defende o autor.

Para o investigador João Carlos Calixto, que assina o prefácio da obra, Joaquim Correia apresenta "um levantamento bastante exaustivo de legados e histórias que há muito importava contar", na área da música.

Sublinhando o interesse desta obra, João Carlos Callixto refere a "falta de bibliografia que se torna preocupante quando nos debruçamos sobre o lugar da Música na sociedade portuguesa do século XX".

"O problema é de facto mais vasto, uma vez que muitos dos trabalhos existentes assentam na consulta de fontes secundárias e não coevas, esquecendo ou recusando os materiais originais", alerta o investigador, referindo "a existência de erros crassos" em muitas obras do meio académico e noutras fora dele, e questiona: "Como poderemos transmitir e produzir novo conhecimento se mal conhecemos aquilo sobre o que escrevemos?...".

João Carlos Callixto chama à atenção para o facto de muitos dos nomes que gravaram discos, nas décadas de 1940 e 1950, "dos quais, até aos dias de hoje, pouco mais nos chegou do que algum 'rumor' sobre o respetivo percurso artístico musical".

Há uma ou até muitas histórias da música por contar, como enfatiza Callixto, que, no prefácio, escreve: "Pensemos no impacto causado na cultura local pela chegada dos ritmos elétricos, a partir da segunda metade dos anos [19]50, ou no lugar das emissões de rádio, mesmo depois da anexação definitiva do Estado Português da Índia. Ou, por outro lado, de como [a ditadura do] Estado Novo preferia 'ignorar' esses mesmos acontecimentos dessa e doutras formas, mantendo um deputado na Assembleia Nacional, em representação do território ou divulgando música, na então metrópole, que incluía a riqueza da Índia como uma parcela do 'folclore' português espalhado pelo mundo".

"São estas e são também muitas outras as histórias e a História que Joaquim Correia" relata nesta obra, "trazendo aos dias de hoje a música de Goa de sempre", remata João Carlos Calixto.

Joaquim Correia, aproveitando "a vitalidade das inúmeras orquestras que preenchiam muitos dos rituais de divertimento/celebração/religiosidade da comunidade católica", revela "elementos culturais específicos dos goeses" que ocupavam os fins de semana a assistir peças de "Tiatr", uma espécie de teatro de revista com sotaque indiano.

O autor salienta nesta obra que a emissora local "estava na vanguarda das rádios mais ouvidas na região".

O investigador sistematiza a música que se ouvia e dançava nos bailes, em Goa, nas festas em clubes ou no adro da igreja, feiras ou festividades religiosas, nas casas e a trasnmitida pela rádio.

Joaquim Correia, por seu turno, aponta Macau e Goa como os territórios, no Oriente, onde "mais se nota a presença do Ocidente, muito particularmente a portuguesa", referindo que "ambos são lugares estranhos, misturados, numa combinação quase excêntrica pela singularidade, onde de muros seculares brota cultura na forma de festivais, celebrações e outras manifestações artísticas variadas".

Joaquim Correia salienta que, aos cerca de 500 anos de vida em comum entre portugueses e goeses, somam-se "os milhares que antecederam a chegada dos portugueses, e essa 'amálgama criativa' descobre-se, bastando passear nas ruas absorvendo alegorias intemporais".

O autor afirma que o que mais lhe interessou, do ponto de vista de objeto de estudo, foi "a chamada música 'mainstream' das festas e bailes, a que fazia dançar à volta das mesas ou nos jardins até de madrugada!".

"Convém realçar que, no nosso levantamento, a música lusitana (e também o folclore luso-indiano) surge apenas como um dos géneros de música tocado, ouvido e dançado, entre muitos outros sons do mundo: jazz, América Latina, francesa, americana, inglesa, indiana, etc.".

Apresentando Goa como "um abraço de culturas que não passa tanto pela mistura no sangue mas antes pela partilha do dia a dia", o autor escreve que "é exótica para os indianos e para os ocidentais", mas "para os portugueses [é] menos", e dá conta de "um reacender do interesse pelas raízes portuguesas, que se manifesta de formas diversas", neste Estado Autónomo da Índia.

A obra inclui um texto do jornalista e investigador Luís Pinheiro de Almeida sobre a chamada "invasão hippie", um outro da etnomusicóloga Susana Sardo sobre a "Enciclopédia da Música e dos Músicos de Goa", e um posfácio de Edgar Valles, antigo colaborardor da revista Seara Nova.

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