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O Bando concebeu os 'Pássaros' para questionar a era da pós-verdade

Como lidamos com a diferença, numa época de "pós-verdade", e numa Europa onde há cada vez mais barreiras a voar, é a questão que o Teatro O Bando suscita na nova peça que estreia, na quinta-feira, em Palmela.

O Bando concebeu os 'Pássaros' para questionar a era da pós-verdade
Notícias ao Minuto

22:29 - 11/06/18 por Lusa

Cultura Teatro

'Pássaros', o nome do espetáculo comunitário em 'drive-in', inspira-se no realismo mágico, da literatura latino-americana, e é dirigido por Miguel Jesus e João Neca.

Criado no âmbito do projeto europeu Platform Shift+, uma rede que congrega 11 companhias de teatro de nove países diferentes, o espetáculo foi gizado com base na ideia do voo dos pássaros, porque os pássaros "conseguem voar e emigrar sem barreiras, não há fronteiras", explicou à agência Lusa o responsável pela dramaturgia e encenação, João Neca.

A Europa "devia ser um espaço de voo. De voo saudável, de passagem de um lado para outro", realçou. Contudo, sabemos que, nos últimos anos, há cada vez mais barreiras a esse voo, que impedem que as passagens sejam feitas com a naturalidade que a natureza tem", argumentou.

Não é assim de estranhar que "Pássaros" espelhe as preocupações deste coletivo de teatro, com sede em Palmela, em relação aos movimentos migratórios que se vivem na Europa e à rejeição de alguns países a esses movimentos, referiu.

Rejeição ao que é diferente de nós, mas, sobretudo, rejeição a pessoas, sustenta, sublinhando que "nunca é demais lembrar que o que está em causa são pessoas, são seres humanos".

Para contar esta história sobre como lidamos com o que é diferente de nós - quer seja por via da língua, da orientação sexual, da cor da pele, das diferenças de hábitos e costumes, numa sociedade que, embora individualista, está, todos os dias, a normalizar os seres humanos -, João Neca e Miguel Jesus conceberam um espetáculo assente em várias alegorias.

A perda de identidade do ser humano leva também à perda de individualidade, argumenta. E saber "lidar e aceitar a diferença (...) é um caminho para ter um pensamento individual mais crítico, para estar mais emancipado socialmente", enfatiza.

Mas como esta peça também fala da "verdade atual e da pós-verdade", ou seja, "de quem chega primeiro à notícia e não de quem está preocupado em relatar os factos ou a verdade dos factos" - outro problema com que a sociedade se confronta atualmente, nas palavras de João Neca -, a narrativa começa com um vídeo que é exibido na sede de O Bando, que transmite uma "espécie de 'fake news'" a relatar o aparecimento de um animal estranho e enorme num quintal da localidade.

Alarmados com a notícia, os espetadores e os atores comunitários, formados por O Bando, começam a aventura. Parte-se para o 'drive-in', com transmissão em direto numa frequência FM, com a voz do jornalista Fernando Alves, até um terreno ermo e inóspito perto do castelo de Palmela, onde os carros ficam estacionados à volta de um círculo - como se de uma arena tratasse, até porque se vai assistir a uma espécie de circo.

E que "circo" é esse? O que Paulo (Paulo Lima) e Manuela (Manuela Sampaio), dois não-atores que representam o casal dono do quintal onde caiu o animal estranho, montaram para ganhar dinheiro à conta do fenómeno. O espetáculo a que acorrem os habitantes da aldeia, protagonizados pelos atores comunitários, que têm frequentado oficinas e ateliês de formação de O Bando.

No centro do círculo vê-se um buraco enorme, onde se esconde o pássaro-anjo - Simurgui -, interpretado por Guilherme Noronha, e onde os populares vão acorrendo, ora com curiosidade, ora com medo, ora com vontade de o expulsarem.

Personagens absurdas, excêntricas, loucas, de um ridículo extremo, refere João Neca, justificando que o facto de os espetadores não estarem numa sala fechados, obriga a uma corporalidade e a uma 'fisicalidade' exacerbada. Mas também personagens excêntricas, "porque correm atrás de verdades que nos são impostas todos os dias, e das notícias virais", argumenta.

Pela arena - onde irão representar perto de cinquenta pessoas - estará ainda Raul Atalaia, outro ator profissional de O Bando, e seis saxofonistas, da equipa do Festival Internacional de Saxofone de Palmela.

E porque o espetáculo assenta também numa lógica de mediação, em que os espetadores estão a receber, como verdade, a transmissão que lhes chega pelo rádio, nem sempre as cenas vividas na arena coincidem com a transmissão radiofónica.

É mais uma alegoria para os dias de hoje, em que o que conta "é o 'click bite', a primeira verdade, ou a pós-verdade" de quem chega à notícia, observa João Neca, numa crítica à voragem de informação com que "somos assoberbados diariamente",

Já em apoteose e quando o público não consegue perceber onde está Simurgui - e quando este se torna um mero ponto no horizonte, como diz uma das falas da peça - eis que a rádio emite outra notícia.

"Em Vale dos Barris, uma filha que desobedeceu aos pais, está a transformar-se numa aranha", "noticia" Fernando Alves.

Os espetadores voltam então, em caravana, à sede do coletivo de teatro, para assistirem a um vídeo com o fenómeno.

Desta peça, que mobiliza vários elementos da comunidade entre os quais o Grupo de Teatro de Vale dos Barris, que começou a frequentar as oficinas de O Bando há quatro anos e que já formou um grupo próprio, irá também sair uma parceria entre O Bando e o Festival de Saxofone de Palmela.

Com texto coletivo inspirado no realismo mágico, a dramaturgia e encenação de "Pássaros" são de João Neca e Miguel Jesus, numa cocriação com Guilherme Noronha.

A música original é de Jorge Salgueiro, o figurino de Simurgui, da fotógrafa e figurinista italiana Annamaria Cattaneo, o figurino do restante coletivo, de Clara Bento, a conceção cenográfica, de Rui Francisco, o desenho de vídeo, do inglês Ed Sunman, e o apoio à coordenação musical de João Pedro Silva.

"Pássaros" conta com a participação comunitária de, entre outros, Ana Correia, Belisa Sequeira, Cristina Sampaio, Edgar Costa, Filipe Freire, Gil Sidaway, Henrique Resende, Isabel Santos, Katsiaryna Drozhzha, Matilde Andrade, Rita Santana, Sara Baptista e Tiago Sousa.

"Pássaros" é uma coprodução do Teatro O Bando, Teatro dos Barris, com o Elsinore Centro di Produzione Teatrale (Itália), o Pilot Theatre (Reino Unido) e o Festival Internacional de Saxofone de Palmela, em parceria com a Sociedade Filarmónica Humanitária, o Conservatório Regional de Palmela e o quarteto Artemsax.

A peça estreia-se no dia 14, quinta-feira, vai estar em cena até 01 de julho, com espetáculos de quinta-feira a domingo, às 21:00.

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