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"Portugal tem atores fantásticos", com "intensidade" e "isso sente-se"

Lucinda Syson, diretora de casting britânica, que trabalhou em filmes como ‘Blade Runner 20149’ e ‘The 5th Element’, é uma das convidadas da Academia Portuguesa de Cinema para a terceira edição da iniciativa PASSAPORTE.

"Portugal tem atores fantásticos", com "intensidade" e "isso sente-se"
Notícias ao Minuto

18:03 - 25/05/18 por Anabela de Sousa Dantas

Cultura PASSAPORTE'18

A Academia Portuguesa de Cinema traz a Portugal, pela terceira vez, um conjunto de diretores de casting internacionais no âmbito da iniciativa PASSAPORTE'18, que começou na quarta-feira e se prolongará até domingo, 27 de maio. Lucinda Syson, que participou nas duas edições anteriores, voltou assim a Lisboa para participar na iniciativa, que pretende encurtar as distâncias entre os atores portugueses e o mercado estrangeiro.

“Sou uma grande apoiante, tenho vindo todos os anos”, começou por dizer ao Notícias ao Minuto, a diretora de casting britânica, que trabalhou em produções como ‘Blade Runner 2049’ (2017), ‘Wonder Woman’ (2017), ‘Cloud Atlas’ (2012), ‘Children of Men’ (2006) e ‘The 5the Element’ (1997).

“Quando comecei como assistente de casting, o – odeio quando as pessoas usam este termo - ‘talent pool’ de atores era primariamente a América e depois um pouco a Inglaterra. O que é maravilhoso agora é esta expansão, ou globalização”, acrescentou, elogiando estas “oportunidades de casting em países que nem se suspeitava que falavam inglês”.

“O que a Patrícia [Vasconcelos, diretora de casting e impulsionadora da iniciativa] nos ensinou a todos com este festival, verdadeiramente, é que há aqui atores fantásticos e falam inglês. É um processo, claro, vimos todos os anos, conhecemos os atores e, dependendo do projeto em que estejamos envolvidos no momento, pode surgir uma oportunidade, ali ou no futuro”, afirmou.

Recorde-se que o PASSAPORTE’18 coloca no mesmo espaço vários diretores de casting internacionais e atores portugueses selecionados pela organização, onde participam numa série de workshops e entrevistas.

"Em Portugal, o trabalho e a formação continua clássica, tradicional e acho que isso sente-se"

Citando Joana Ribeiro e Nuno Lopes como alguns nomes portugueses que lhe chamaram a atenção, Syson sublinhou que nas suas vindas a Lisboa tem encontrado talento. “Atores e atrizes que, certamente, estamos a pôr em agenda para o futuro”, adiantou.

Quando questionada sobre se há algum diferenciador nos atores portugueses, Lucinda Syson é perentória: “Provavelmente, uma intensidade. Alguns dos atores portugueses têm muita formação nesse aspeto. Acho que o trabalho e a formação continua clássica, tradicional e acho que isso sente-se. Às vezes isso torna-se mais diluído, hoje em dia”.

A britânica indica, sobre as possibilidades de contratar atores portugueses para trabalhos no exterior, que o aumento e diversificação do mercado facilitou a procura de talentos além fronteiras. “Há muitos filmes a serem filmados no Reino Unido, o que quer dizer que podemos muito facilmente justificar, às vezes [risos], vir buscar atores a Portugal ou a Espanha. É muito importante para os castings, num meio que está cada vez maior, com a Netflix, Amazon, Hulu e os filmes, também”, fez sobressair.

"O casting é um processo difícil, não é tudo sorrisos e abraços”

“O trabalho de um diretor de casting às vezes não é compreendido”, lamenta Lucinda Syson, explicando que “é mais um modo de vida do que uma carreira ou uma profissão”.

“Tudo o que vemos ou que assistimos é guardado, ao longo do tempo.(…) Não sabemos em que projetos vamos trabalhar a seguir, que papéis vamos procurar, e portanto temos de ir ao teatro constantemente, ver filmes, conhecer atores e, com sorte, talvez algo mágico aconteça depois disso tudo”, explicou. É, no entanto, crucial ter “instintos, um sexto sentido”.

Lucinda referiu que “às vezes é um processo difícil, não é tudo sorrisos e abraços”, mas que isso é tudo parte do processo. Garantiu que há realizadores muito exigentes, mas que esses são aqueles com quem prefere trabalhar.

“No teatro há uma versão diferente da peça todas as noites, mas no cinema, todo o esforço é para aquele trabalho. E tem de dar tudo certo. E há realizadores que às vezes levam as pessoas à loucura, os diretores de casting, os responsáveis de guarda-roupa, etc. Mas isso acontece porque, na cabeça deles, é preciso encontrar o ‘clique’. E gosto de trabalhar com essas pessoas”, confirmou.

O mais difícil, acrescentou, sustentando que “acontece muito”, é quando se trata de “pessoas que têm a função de realizador mas não são realizadores”. “Não pretendo que isto soe arrogante, mas simplesmente não têm aquele instinto, especialmente com atores. E pode não ter a ver com a formação, é a forma de ser, como pessoas”, lamentou.

Porém, quando as pessoas “falam a mesma língua”, o resultado é muito gratificante: “Adorei fazer ‘Children of Men’. Foi muito, muito difícil, mas foi uma descoberta e muito bonita, mesmo sendo emocionalmente muito difícil. O Alfonso Cuáron é alguém que realmente quer que toda a gente seja ator, até se for para o papel da ‘mulher a cantar nas escadas’. Tivemos de improvisar cenas bastante intensas a nível emocional, com os atores, e foi um desafio”.

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