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Daniel Jonas traduziu Wordsworth, o poeta que todos leram mesmo sem saber

A Assírio e Alvim publicou 'Poemas escolhidos', de William Wordsworth, numa edição bilingue, traduzida por Daniel Jonas, para quem o poeta inglês está tão enraizado que provavelmente já todos o leram, mesmo sem nunca o ter lido.

Daniel Jonas traduziu Wordsworth, o poeta que todos leram mesmo sem saber
Notícias ao Minuto

11:00 - 14/05/18 por Lusa

Cultura Poesia

"Não é necessário ler-se realmente Wordsworth para já o ter lido", afirma o poeta, dramaturgo e tradutor português Daniel Jonas, responsável pela seleção, pelas anotações e pelo prefácio da obra agora editada, recordando o impacto do poeta inglês na obra de outros autores e a sua preocupação com a linguagem comum.

Esta é, aliás, uma das características de "todos os poetas fortes", na opinião de Daniel Jonas, que, mais à frente no prefácio, reitera a ideia: "É provável que já andássemos a ler Wordsworth há algum tempo, sem o sabermos".

"O poeta que leremos de seguida não nos é desconhecido. Ainda que convictamente pudéssemos afirmar nunca termos lido o poeta em questão, a sua poesia é de tal maneira uma aquisição coletiva que torna o seu anonimato meramente uma questão formal", afirma.

Para sustentar estas alusões, Daniel Jonas socorre-se de duas situações, a primeira das quais é a influência que Wordsworth tem tido em vários poetas, vivendo "sob a forma de uma assombração permanente", verificável nas suas obras.

"Assombração", porque esta influência não é necessariamente vista como positiva - explica -, já que muitos destes poetas rejeitam essa influência, pois não sendo também "poetas menores", pode considerar-se que agonizam "sob a ameaça do seu ascendente".

Reforçando a mesma ideia, Daniel Jonas descreve-os como "molestados e sofridos poetas posteriores que tentam abafar a inapelável imposição da sua dicção".

Alguns exemplos são apontados, como é o caso de Fernando Pessoa, ortónima e heteronimamente: "O sintoma mais agressivo deste mal-estar é a balada lírica de Pessoa 'Ela canta pobre ceifeira', a qual explicitamente acusa as maleitas da balada wordsworthiana 'The Solitary Reaper'".

Esta ideia não é, de resto, totalmente nova, uma vez que já George Monteiro, escritor, professor de literatura e um dos tradutores de Fernando Pessoa, havia escrito sobre o impacto de Wordsworth na estética e na obra de Fernando Pessoa, prosseguindo uma teoria que anteriormente tinha sido lançada por Jorge de Sena.

Mas Daniel Jonas não se detém apenas em Pessoa, localizando "a grande via Wordsworth em outros atalhos", como no poeta Ruy Belo, no realizador Elia Kazan, com "O Esplendor na Relva", no cantor Ian Curtis, vocalista dos Joy Division e admirador de Wordsworth, e até no músico Viny Reilly, líder da banda The Durutti Column, que, numa composição dedicada à memória de Ian Curtis, usou o primeiro verso do poema "There was a boy".

A segunda situação descrita por Daniel Jonas em que é possível ler Wordsworth sem o ler, é quando "declamamos William Wordsworth sem o sabermos", usando frases como "O Filho é o Pai do Homem", "Matamos p'ra dissecar" ou "O que é que o Homem fez do Homem".

Sobre a "matéria da poesia wordsworthiana", diz Daniel Jonas ter como "preocupação dominante" o real, "a aplicação das leis de verdade e beleza poéticas na natureza e na natureza humana, ou seja, da aplicação das ideias à vida".

Uma ética poética que responde à questão "como viver?" e que viveu com o poeta desde a sua infância.

"Espírito, além do mais, impressionável, capaz de imaginar a charneca ofegante junto ao seu pescoço ou de se julgar perseguido por penhascos enquanto remava num lago ao luar, o pequeno Wordsworth fora uma criança visitada por sensações de imensidão onde habitavam espíritos fora do alcance da generalidade das pessoas", descreve Daniel Jonas.

A este "espírito nervoso e sensível", o poeta inglês aliou, mais tarde, uma força intelectual que o colocou numa "esteira apenas trilhada por botas especialmente marcantes, e que talvez só as de Yeats foram capazes de acompanhar", considera.

Os poemas apresentados nesta edição seguem a ordem cronológica, o que não significa que a versão escolhida seja a primeira, já que Wordsworth nunca parou de reescrever a sua obra até à sua morte.

Vários poemas presentes neste volume foram sujeitos a uma "purga autoral", pelo que a exposição aqui apresentada seguiu a arrumação da primeira data conhecida para os poemas, "embora tal plano possa nem sempre coincidir com a versão escolhida", explica Daniel Jonas.

O critério de seleção obedece a "caprichos mais ou menos intuitivos do seu tradutor", o mesmo é dizer, ao seu gosto pessoal e ao que resulta de uma leitura "informada e ampla do seu autor", pretendendo ser, de certa forma, "um relativo e generalista 'melhor de'".

Na opinião de Daniel Jonas, os 50 poemas que constituem este volume devem ser encarados também como uma coletânea paisagística da obra do autor, e ser lidos enquadrando o seu criador na história literária, "funcionando como uma breve e literária biografia do poeta e cidadão William Wordsworth".

O livro, de 319 páginas, publicado no final de abril, inclui uma cronologia da vida do autor e diversas notas, elas próprias uma seleção de observações que Wordsworth decidiu incluir em comentário aos seus poemas.

Do autor, em Portugal, foi editado em 2010, pela Relógio d'Água, o poema autobiográfico 'O Prelúdio ou o desenvolvimento do espírito de um poeta', com tradução, seleção e notas de Maria de Lourdes Guimarães.

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