"A maior recompensa que posso ter é saber que a mensagem passa"

Greg Tocchini, conceituado ilustrador de comics que já trabalhou com as maiores editoras, foi um dos convidados da Comic Con Portugal deste ano. Numa conversa com o Notícias ao Minuto falou sobre o evento português, sobre o seu trabalho, a realização de um sonho e até da importância do otimismo.

© Notícias ao Minuto

Cultura Comic Con Portugal 14/09/19 POR Fábio Nunes

Não são só os nomes de cinema e televisão que são grandes nesta edição da Comic Con Portugal. Como já aconteceu em anos anteriores, a organização do evento continua a convidar os principais nomes da BD nacional e internacional. 

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No primeiro dia da Comic Con, na quinta-feira, foi possível ver a dada altura no Artist's Alley Nuno Plati, Ricardo Venâncio, Joe Prado, Ivan Reis e Greg Tocchini. Uma equipa de luxo no universo dos comics e da ilustração e, claro, os fãs lá estavam a pedir um autógrafo ou a trocarem dois (ou mais) dedos de conversa com eles. 

No entanto, Greg Tocchini teve tempo para responder a algumas perguntas do Notícias ao Minuto e falou sobre a sua presença na Comic Con Portugal, o contacto com os fãs, a oportunidade para estar com colegas de profissão e sobre o seu trabalho. E isso não é dizer coisa pouca.

Greg Tocchini nasceu em São Paulo, no Brasil, em 1979. O bichinho dos comics surgiu em pequeno. Tornou-se um hobby e o hobby transformou-se numa carreira sólida, tendo já trabalhado para as principais editoras. DC, Marvel, Image e Dark Horse? Sim, Greg Tocchini já fez trabalhos para todas. Já desenhou Batman, Thor ou Green Lantern. 

'Low' é uma das séries de comics mais recentes. "Queria um projeto positivo, com energia positiva", recorda, quando pensava no que queria fazer a seguir. O otimismo tornou-se na mensagem central de 'Low'. E numa fase, em que como admite, o Brasil atravessa um momento difícil, esse otimismo ganhou uma dimensão ainda maior. Mas a esperança também chega num livro aos quadradinhos. 

É a primeira vez que está na Comic Con Portugal?

É a primeira vez e estou a amar. Lisboa, as pessoas, a feira é incrível. Tinham-me dito que era uma feira pequena mas muito simpática. Mas na verdade é uma feira enorme e está cheia de artistas e de eventos. Estou a adorar.

O Greg já esteve noutras Comic Con. Apesar de ser o primeiro dia, o que está achar dos fãs portugueses?

Estou a gostar bastante. Primeiro, porque o facto de poder falar em português ajuda, a comunicação fica melhor. As pessoas vêm ter comigo e contam histórias de como começaram a ler os meus comics ou quando começaram a ler comics, ou como gostam dos desenhos. Já encontrei vários fãs ou pessoas que foram editores de banda desenhada e que me contam como é que eles publicam a banda desenhada aqui. Isso tem sido muito bom.

Quando estamos no estúdio ou no escritório sozinhos a produzir, o público não tem uma cara. Sabemos que vendemos os comics, que temos leitores, mas eles não têm caraEssa interação com os fãs é importante para si? É uma oportunidade para os fãs falarem sobre o seu trabalho na primeira pessoa. É um feedback importante para o Greg?

Há vários pontos nessa questão. Há um pessoal, que é o facto de o meu trabalho ter essa incrível virtude que faz com que eu conheça o mundo quando sou convidado para as convenções. Em Nova Iorque, quando venho a Portugal, em Berlim e isso é fascinante. É uma virtude do meu trabalho. A outra parte é o contacto com o público, que é muito importante. Os ilustradores são muito isolados. O ilustrador fica em casa a trabalhar sozinho com todas as neuras do género ‘Ah eu sou uma fraude’, ‘Eu não estou a fazer isto bem, ‘Eu podia fazer melhor’. Isto acumula-se quando estamos sozinhos. Quando vamos aos eventos e encontramos outros ilustradores, outros escritores e conversamos com eles e percebemos que não somos só nós, que todos sentem aquela dificuldade, pensamos ‘Ufa! Eu sou normal. Não tenho nenhum problema. Todos tentam e estão a produzir da mesma forma, da melhor forma que conseguem’.

Quando estamos no estúdio ou no escritório sozinhos a produzir, o público não tem uma cara. Sabemos que vendemos os comics, que temos leitores, mas eles não têm cara. Quando estamos sentados ali na mesa e as pessoas vêm ter connosco, com o nosso trabalho e dizem ‘Muito bom. Adorei. Ajudou-me Foi divertido’, nós não só nos lembramos de como é ser um leitor, de como é ler o trabalho de outros e pensar ‘Há uma pequena catarse. Funcionou. Eu liguei o elo. Contei uma história e a pessoa desfrutou, houve uma catarse e no final essa pessoa ainda vem agradecer-me’. Pelo menos para mim, é muito emocionante.

No Artist’s Alley estão ali outros ilustradores. Esse contacto com outros colegas, com pessoas que têm o mesmo trabalho que o Greg, também é interessante?

Eu gosto de contar esta história. Eu fui para Nice, em França, há dois anos e conheci o Duncan Fegredo. Eu comecei a desenhar por causa do trabalho dele. A dada altura quando estava a ler os comics ‘Jay & Silent Bob’ que ele desenhou pensei ‘É isto que eu quero fazer. Quero desenhar comics e quero desenhar como ele’. Depois de 12 anos a trabalhar, a produzir, e de se ter tornado uma carreira, não apenas um hobby, eu encontrei o Duncan e ele disse-me ‘Eu sou fã do teu trabalho’ e eu respondi já com uma lágrima a escorrer ‘Não me digas isso porque é por tua causa que eu desenho. É emocionante estar aqui contigo’. Por isso, encontrar estas pessoas para mim é sempre muito emocionante, é incrível encontrar pessoas de que era fã e que agora conhecem o meu trabalho. Isso deixa-me muito entusiasmado e deixa-me cheio de energia para fazer muito mais e melhor.

Greg Tocchini esteve no Artist's Alley. Uma oportunidade para conviver com os fãs© Notícias ao Minuto

Já teve a oportunidade de trabalhar com as principais editoras, como a Marvel, a DC, a Image. É possível realçar diferenças entre cada uma destas editoras, há umas que dão mais liberdade criativa que outras? Com qual é que gostou mais de trabalhar?

Há diferenças. A DC tem uma coisa que eu gosto. Funciona mais como uma família, acho eu. É como uma família italiana. Eles gostam de se juntar, fazer jantares, reunir o pessoal. A Marvel é muito amigável. Você chega e eles estão sempre a falar consigo para fazer uma capa ou para participar num projeto novo. E a Image acolheu-me de uma forma que faz sentir-me em casa.

Mas essa questão das diferenças relativamente à liberdade criativa, depende muito da fase, da época, do editor, do trabalho. Por exemplo, eu já fiz 'Star Wars' para a Dark Horse. Quando me ofereceram 'Star Wars' para a Dark Horse eu disse logo ‘É óbvio que eu vou fazer. Eu quero fazer Star Wars’, mas foi um dos trabalhos mais complicados. Não era só a Dark Horse que tinha de aprovar o meu trabalho, na altura tinha de passar pelo crivo da LucasFilm para garantir que não havia nenhum conflito com a imagem. Então a aprovação demorava, era longa, e quando era aprovado tinha várias correções. Na Marvel eu tive liberdade quando fiz o Thor, foi o meu primeiro trabalho e foi o trabalho em que tive maior liberdade. Eles disseram-me ‘Faz da forma que quiseres. É um Thor adolescente, aproveita e diverte-te’. Tive trabalhos mais sérios em que tive de mudar o traço para deixá-lo com um ar mais de super-herói, como foi o caso do Green Lantern para a DC.

Mas cada trabalho tem uma característica diferente, é uma ‘turma’ diferente, às vezes é uma equipa criativa. Atualmente eu produzo lápis e arte final, já cheguei a produzir lápis, arte final e cor. Isso muda em cada trabalho, mas eu já tive o prazer incrível de trabalhar com estas editoras. Trabalhar com a Marvel e a DC foi realizar um sonho de infância. ‘Agora consegui, cheguei até aqui’, mas quando atingimos esse ponto queremos um pouco mais. ‘Só faço lápis, então também quero fazer arte final. Faço lápis e arte final, então quero fazer a cor’ e vai-se insistindo e nestes eventos nós encontramos os editores e isso faz toda a diferença. O facto de cumprimentar os editores, dizer ‘Eu sou o Greg Tocchini e fiz isto’ e eles não só me reconhecem, como num próximo trabalho quando estiverem a escolher a equipa criativa dizem ‘Eu conheci o Greg no ano passado. Ele estava a fazer isto. Que tal o Greg?’. Há um ganho invisível, um investimento invisível nestas convenções que vai resultar em lucros futuros. Como artista, todas as convenções são uma surpresa relativamente ao que vai acontecer no futuro, mais do que o que acontece aqui.

Otimismo. Por incrível que pareça, é um tema que acho muito importante como brasileiro. Estou a passar por um governo terrível, por várias crises no meu paísQual é que foi o super-herói que mais gostou de desenhar?

Foi o Ion. Porque comecei de uma forma, fiz toda uma edição e enviei para eles e disseram-me ‘Greg, não é bem isto. Nós queremos algo diferente’. Voltou para mim, fiz algo diferente e eles disseram-me ‘É isto. Mas agora queremos mais uma coisa’ e eu fui fazendo. Foi desafiante, não diria que foi o que deu mais trabalho. Houve outros nos quais trabalhei durante um período maior e pelos quais fiquei mais conhecido, como o Thor para a Marvel ou personagens que queria desenhar como o Batman e o ‘Batman by Gaslight’. Mas o Ion foi o mais complicado.

Um dos seus trabalhos mais recentes é a série ‘Low’. O que nos pode dizer sobre estes comics?

O ‘Low’ foi um trabalho que surgiu depois de ter feito o ‘The Last Days of American Crime’ com o Rick Remender. Quando acabámos, ele perguntou ‘Qual é que o nosso próximo projeto?’ e uma das coisas que lhe disse foi que queria um projeto positivo, com energia positiva. Não quero super-heróis, mas quero que esse projeto passe positividade. E o Rick disse-me ‘Então tenho o tema perfeito. Vamos falar de otimismo’ e então estou há sete anos a trabalhar com o mesmo tema: otimismo. Por incrível que pareça, é um tema que acho muito importante como brasileiro. Estou a passar por um governo terrível, por várias crises no meu país e em vários momentos quando estou de cabeça baixa digo a mim próprio ‘Não. O otimismo, a forma como vês o mundo altera a tua perceção, altera a forma como reages ao mundo’. Devo tudo isso ao ‘Low’.

E esse otimismo passa para os leitores?

Passa. Tenho recebido várias cartas de pessoas que agradecem a mensagem de otimismo que o ‘Low’ passa. Essas pessoas revêem-se no ‘Low’ ou sentem que o ‘Low’ lhes transmite uma mensagem de que precisavam naquele momento e isso faz toda a diferença. Acho que é a maior recompensa que posso ter quando faço comics, saber que a mensagem, não só passa, como chega aos leitores desta maneira.

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